quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Nome do Jogo


Vamos imaginar que um estrangeiro amante do futebol, em suas andanças pela orla do Rio de Janeiro, resolva bater uma bolinha na praia. Ele é recebido com sorrisos, escalado numa das equipes, e começa o jogo. No primeiro passe que recebe, porém, é empurrado, se esborracha na areia e fica sem a redonda. Quando está abrindo a boca para reclamar, percebe que um dos seus companheiros de equipe recuperou a pelota utilizando o mesmo expediente. E, ante seu olhar atônito, a partida segue com uma sucessão de empurrões, ombradas, carrinhos e safanões. Diante dessa situação, o que poderia fazer o turista? Seguir jogando pelas regras que conhece e aprendeu a respeitar, sabendo que dificilmente conseguiria ganhar um só lance na partida; se adaptar às estranhas regras locais e começar também a praticar o futebol arte marcial; ou simplesmente se retirar do gramado.
Por mais que essa alegoria seja inusitada, acredito que espelhe o que deve sentir um cidadão honesto e bem intencionado quando tenta se aventurar na política brasileira.
Já escrevemos antes sobre a distância que existe entre nosso sistema eleitoral representativo, com forte influência do poder econômico, e a democracia conceitual, preconizada pela própria Constituição. Demonstramos, também, que um dos efeitos dessa plutocracia disfarçada é a absurda disparidade na representação do Congresso Nacional. Há, porém, uma consequência ainda mais nefasta: o sistema político vigente parece ter sido planejado sob medida para manter, e ser mantido, pela corrupção.

“O presidente que não contemporizou com o patrimonialismo, caiu.”
(Frase atribuída ao ex-Presidente Lula, em artigo do ex-quase tudo Ciro Gomes)

Espantou-me, na época em que li esse artigo, a baixíssima repercussão da suposta fala do ex-Presidente. Mas, pensando melhor, entendi que os adversários dificilmente poderiam obter dividendos eleitorais em cima dessa “revelação”. Afinal, os políticos precisam chamar atenção pelos pontos em que diferem dos seus concorrentes, de nada valendo repisar suas semelhanças. E mesmo o eleitor de raciocínio mais rudimentar dificilmente será convencido de que a corrupção é “privilégio” de um ou outro grupo, vide a democrática distribuição entre os partidos da “bancada ficha suja” (veja neste link os dados divulgados pelo TSE nas eleições de 2012). O principal partido de oposição ao governo federal lidera a lista, com o grande baluarte da base aliada nos seus calcanhares. Assim até dá para entender por que preferem não tratar com seriedade de certos assuntos. Discutir aborto, religião ou taxa de juros é muito mais seguro.

“O problema da corrupção não é apenas a violação das normas, mas o fato de ela muitas vezes ser as próprias normas.”
(Jean Wyllys, Deputado Federal de primeira viagem, leia o artigo completo aqui)

Vamos tentar contrariar frontalmente a afirmação acima e defender que não temos um sistema que estimula a corrupção. Que esta se originaria da má índole dos nossos políticos, e seria alimentada pela impunidade. Não duvido que estes fatores tenham grande peso na disseminação dos ilícitos. Porém, acreditar que a corrupção resulta somente de desvios morais, considerando a amplitude e diversidade da nossa fauna de colarinhos brancos, nos conduz a questões inquietantes: somos, então, todos imorais? Ou seria a classe política menos ética que a média da população? E, se isso for verdade, já eram menos éticos antes, e por isso se sentiram atraídos pela política, ou se tornaram menos éticos depois, para ter sucesso? Ou, se somos mesmo todos imorais, não iremos naturalmente tentar impor regras que facilitem e encubram nossas imoralidades?
Não importam as respostas que possamos dar a essas perguntas, nenhuma delas mudará o fato de que, se a corrupção nascesse apenas das más iniciativas de poucos indivíduos, ela não seria um problema tão grande como de fato é no Brasil. A verdade é que a corrupção se tornou parte integrante do nosso sistema político, em que o dinheiro é muito mais importante do que ideologia ou moral. Assim, é indiferente se achamos que pessoas más criaram o sistema, ou se elas se tornaram más por causa do sistema. Nos dois casos, é claro que ele precisa ser enfrentado. Precisa ser modificado.

 “O sistema não trabalha para resolver os problemas da sociedade. O sistema trabalha para resolver os problemas do sistema.”
(Capitão Nascimento, Tropa de Elite 2)

Mas será que não temos pessoas decentes, realmente honestas na política? Que consigam escapar das armadilhas e atuar em prol da sociedade?
Embora, evidentemente, não me arrisque a atestar a índole, para o bem ou para o mal, de nenhuma pessoa, em especial de políticos, prefiro acreditar que temos, sim, muitas pessoas dispostas a mudar para melhor o nosso país. E volta e meia me deparo com notícias que indicam que, se elas existem mesmo, enfrentam dificuldades maiores do que podemos imaginar.

“Sempre desejei um município livre da corrupção e injustiças, mas me sinto incapaz de exercer tal função.”
(Frase da carta de renúncia de Lori Gaio, ex-prefeito de São Jorge do Oeste/PR)

“Ou você dá o dinheiro, ou você não vai governar.”
(Ameça que o Prefeito de Itaocara-RJ afirma ter sido feita pelos vereadores)

Não conheço nenhum dos políticos envolvidos nos casos supracitados, e até pode haver um outro lado nessas histórias. Mas o que elas ilustram, no mínimo, é a irracionalidade de esperarmos que surja um redentor, um único indivíduo que enfrente o sistema e tenha sucesso. Nós temos, para o bem e para o mal, três poderes. Que normalmente só se aliam quando tem interesses em comum.
Faltam oitenta dias para 05 de Outubro. Posso apostar um dedo que, como mestres da prestidigitação, os candidatos farão todos os seus esforços para que a atenção das pessoas fique concentrada no que é menos importante. Para que as eleições continuem sendo uma guerra de torcidas, repletas de promessas que serão esquecidas na poeira do tempo e de mudanças cuidadosamente planejadas para deixar tudo absolutamente igual.
Mas por aqui, vamos aproveitar o período eleitoral para tentar jogar um pouco de luz sobre alguns temas que nossos abnegados políticos preferem deixar na escuridão. Evitando ao máximo citar algum candidato, afinal, não queremos ser alvejados pela Lei 12.891/2013.  
“Olhe a sua volta. Somos todos mentirosos aqui.”
(Petyr Baelish, por George Martin, “As Crônicas de Gelo e Fogo”)



sábado, 12 de julho de 2014

Tangos e Tragédias


Após uma pequena série de artigos relacionados à Copa do Mundo, seria estranho ignorar o fatídico destino reservado à Seleção Brasileira de futebol. Claro que, na “Copa das Copas”, não poderíamos ser eliminados com um placar magro, numa bola vadia. Teria que ser memorável. E, por mais que nossas chances de título nunca tenham sido assim tão grandes como alguns quiseram nos fazer acreditar (como já havíamos dito antes da eliminação, inclusive), não deixa de ser inesperado que, ao fim, tenhamos tido sucesso na organização do torneio e na recepção aos visitantes, e um fracasso tão retumbante no campo de jogo.
Apesar do peso do resultado, me espantei com alguns termos que foram constantemente repetidos na imprensa e nas redes sociais para se referir ao episódio: desastre, tragédia, vergonha, humilhação. Causaram-me tanta estranheza que me senti obrigado não só a refletir um pouco sobre o significado dessas palavras, mas também a compartilhar estas reflexões, que dividi em quatro partes, com os meus poucos e abnegados leitores.
Primeiro ato: poucos dias antes da partida houve o desabamento de um viaduto, por coincidência, na própria cidade de Belo Horizonte. Duas pessoas morreram. Isso é um desastre.
Segundo ato: em janeiro de 2013, um incêndio matou 242 pessoas e deixou feridas outras 116 numa cidade do Rio Grande do Sul. Isso é uma tragédia.
Terceiro ato: o Brasil foi um dos últimos países a abolir (formalmente, pelo menos) a escravatura. Somos, até hoje, uma sociedade racista, escravocrata, retrógrada e desigual, sem prejuízo de outros adjetivos. Isso é uma vergonha.
Quarto ato: ocupamos rotineiramente as últimas posições nos rankings mundiais de educação, com números próximos dos alcançados por potências econômicas como a  Albânia e a Tunísia. Isso é uma humilhação.
Após essa breve digressão, espero que possamos analisar a derrota nos campos sob uma perspectiva mais adequada. 
O esporte de alto nível é um negócio. Um ramo da árvore chamada indústria do entretenimento. E a Copa do Mundo é um dos ramos mais fortes e rentáveis dessa árvore. Por que ganhar ou perder uma competição esportiva, repentinamente, passa a significar tanto para as pessoas? Por que torcemos para Luke Skywalker derrotar Darth Vader?
Porque, naquele momento, seja num estádio de futebol, nas páginas de um livro ou numa sala de cinema, estamos em outra realidade. Num campo de sonhos. Que se espalha muito além das quatro linhas dos modernos estádios. Que embala as arrancadas e chutes em cada rua ou campinho de várzea, que inspira o grito de gol de cada criança que hoje sonha, “quando eu crescer vou jogar na seleção brasileira e me vingar desses alemães”.
Claro que poucos desses sonhadores realmente se tornarão profissionais do futebol. A maioria desistirá do sonho, como sempre acontece quando crescemos. Outros o perseguirão, mas sem sucesso. Mas o esporte tocará a vida de todos. Para alguns como mera recreação; em outros casos, como o detalhe que desviou um adolescente da marginalidade. Sim, nosso futebol hoje é um negócio, um produto: e embora ache que o resultado de campo não merece lágrimas ou imolação pública, também não pode ser desprezado. Precisamos valorizar novamente o nosso produto, alimentar os sonhos. Não porque precisamos de mais Copas do Mundo, mas porque precisamos de mais vida, mais felicidade, mais esperança no futuro.
Hoje podemos ter certeza de que, ao contrário do que se dizia, essa Copa do Mundo nos deixou sim vários legados. Tanto provando que somos capazes de grandes realizações, como escancarando problemas que já passou da hora de enfrentarmos. O que faremos desses legados, porém, depende da sociedade. Eu, pelo menos, nunca vi a raposa fechando a porta do galinheiro.
Que o legado do 7x1 seja a tão esperada mudança na gestão do nosso futebol. Para que ele volte a ser do povo, e não de meia dúzia de engravatados que enriquecem com o esporte. Para que tenhamos sim, estádios bonitos, mas para uso dos brasileiros, não da FIFA. Clubes fortes, alimentando paixões e gerando empregos, mas financiados pela receita de competições fortes e bem organizadas, não pelo dinheiro público.
E propostas para que isso se torne uma realidade existem. O que falta, como sempre, é vontade política. Para os interessados, sugiro que acompanhem, pelo menos, os trabalhos do Bom Senso FC e do nosso eterno camisa 11. E que comecem a debater, a pressionar seus representantes. Que tentem fazer parte da mudança.
As oportunidades, mais uma vez, se oferecem para nós. O futuro dirá se vamos aproveitá-las, ou se nos contentaremos com a troca do treinador e do camisa nove.



quarta-feira, 2 de julho de 2014

O Bom, o Mau, e o Vilão


Há, no mínimo, três “prêmios” sendo disputados pela sociedade brasileira na Copa do Mundo (da FIFA).
O mais importante, em minha opinião, é aquele em que parecíamos tão interessados antes da abertura do Mundial, e que aos poucos vai se desvanecendo: que a atenção despertada pelos possíveis desvios de recursos durante a organização da Copa nos empurrasse um pouco ao longo do  caminho para sermos um povo mais engajado, politicamente ativo. Não apenas para tuitar palavras de ordem tolas, mas para cobrar de quem deve ser cobrado, assumir nossa parcela de responsabilidade pela coisa pública. Como sou realista, mas não ranzinza, quero crer que até avançamos um pouco nesse quesito. Muito já foi esquecido, e muito mais o será depois de outubro. Mas algumas pessoas não esquecerão e, aos poucos, vamos aprendendo a construir uma democracia.
Em compensação, estamos bem perto do segundo prêmio. As profecias apocalípticas não se realizaram. Ao contrário, pasmem, estamos mesmo realizando a “Copa das Copas”. Sensacional dentro de campo, mais do que satisfatória fora dele. Há quem diga até, santa heresia, que superamos em organização os Jogos de Londres. Um estrondoso baque para o nosso complexo de vira-latas. Um pequeno, mas importante, brilho para a imagem do nosso país.
Como grande fã de futebol, estou ciente de que o meu “terceiro prêmio” deve ocupar o topo da lista para a maioria das pessoas: vencer o torneio. Pode soar estranho que eu não me importe tanto com isso. Torço sim para que a taça fique com o Brasil, mas, se não acontecer, passará longe de ser uma tragédia. Mesmo a seleção mais vencedora de todas não pode vencer sempre. E esta edição, em tese, não seria uma das nossas melhores chances. O principal astro do time tem 22 anos. Além dele, os únicos que despontam como destaques em clubes europeus de ponta são jogadores de defesa. Nosso goleiro joga no Canadá, os dois centroavantes, no Brasil mesmo. Temos jogadores vestindo a amarelinha que passaram a temporada na reserva dos seus clubes, e alguns desses clubes são na Ucrânia. Não temos meio de campo, a “organização tática” da equipe pode ser montada, sobrando espaço, numa só das pranchetas do Mister Joel Santana. Mas mesmo assim temos chance: principalmente pela força da camisa, e porque estamos jogando em casa. 
E daí puxo o assunto: por incrível que pareça, o que deveria ser nossa maior vantagem se transformou em fraqueza. A torcida não colabora, só aprendeu a cantar o hino à capela e entoar, vez que outra, o chatíssimo “sou brasileiro...”. Nisso, até tentam jogar parte da culpa para a dona FIFA e seus caríssimos ingressos, que teriam afastado a verdadeira torcida dos estádios. Mas como explicar então a festa de argentinos, colombianos, e até argelinos? Teriam esses povos condições econômicas assim tão superiores aos brasileiros? A verdade é que, por motivos diversos, não temos o hábito de torcer pela seleção.
Nesse caso, muito ajuda quem não atrapalha. Mas claro que não ficamos satisfeitos em apenas não ajudar. Após a dramática vitória sobre o Chile, temperada por uma nuvem de lágrimas, jogadores se escondendo, caindo pelo gramado, tudo coroado pelo discurso de autocomiseração daquele que saiu de campo como herói, assumindo que ainda se sente culpado pela competição que perdemos quatro anos atrás, formou-se um consenso na mídia e na opinião pública: o grupo está “fragilizado emocionalmente”. Estão sentindo a responsa de ter a obrigação de ganhar.
O que faz, então, o torcedor brasileiro? Falo apenas do torcedor, porque entendo essa atitude dos jornalistas, afinal, eles precisam de pautas, de polêmicas. Mas o torcedor, em tese, deveria apoiar sua seleção. E o que faz ele após a vitória? Exalta o goleiro pegador de pênaltis? Elogia nossos zagueiros, alguns dos poucos que vem correspondendo? Dá força ao jovem camisa 10, que vinha muito bem e apenas nesse último jogo teve uma atuação apagada? Claro que não. Como um bando de abutres, começam a repercutir cada fio de polêmica possível, doidos para arrumar um vilão.
Para que elogiar nosso goleiro, se podemos criticá-lo por ter chorado? Melhor ainda, podemos dizer que ele “não fez mais que a obrigação”, já que falhou na última Copa. E o nosso capitão, tido como o melhor zagueiro do mundo? Vamos pisar um pouquinho nele também, porque não quis bater pênalti, nem ficou berrando na rodinha. E por aí poderíamos citar cornetagens das mais variadas que vem ganhando eco, atingindo desde o massagista até o centroavante.
Ora, qualquer psicólogo de botequim poderia concluir que, se temos um grupo abalado emocionalmente (o que, diga-se de passagem, não deveria acontecer em se tratando de atletas profissionais, muito bem remunerados, com as melhores condições para se prepararem, etc., mas está acontecendo, e o mundo do “dever ser” não nos interessa), 23 jogadores morrendo de medo de virarem o “Barbosa” de 2014, a melhor coisa que podemos fazer para atrapalhar é ficarmos apontando o dedo para um, ou para outro, procurando culpados para uma derrota que ainda não aconteceu. E não considero isso apenas burrice, mas também uma tremenda injustiça.
Porque muito poderá ser dito no futuro sobre essa seleção brasileira: que faltou talento, que houve erros na convocação, no esquema tático. Mas não se poderá dizer, jamais, que eles não se importaram. Importam-se até demais, talvez. E nós, que tanto nos queixamos quando, após uma derrota, os vencidos não demonstram tristeza, simplesmente apertam as mãos dos adversários e saem de campo para seguir a vida, muitos até sorrindo, enquanto nós passamos horas chorando, agora estamos reclamando porque eles também choram. Porque eles também sofrem. Porque, assim como nós, eles querem muito vencer. E não sabem se são capazes. E tem medo. Medo de nos decepcionar. Medo de decepcionar a si mesmos. E, para vencer, não podem deixar que o medo os paralise. E, com certeza, não precisam de mais fantasmas.
Por isso eu digo que, de hoje até o jogo final, esses jogadores não merecem ser "cornetados". Estão chorando? Pois então, cantemos para eles. Vamos carregá-los “no colo”, se preciso for. Porque, pelo menos dessa vez, vitoriosos ou derrotados, eles não voltarão para a Europa como se nada tivesse acontecido. Essa seleção, por mais deficiências técnicas e psicológicas que possa estar mostrando, tem alma. E só alma não basta para vencer um jogo de futebol, é certo. Mas não estamos falando de partidas de futebol, estamos falando da Copa do Mundo. Um palco onde, na reta final, alma, magia e vontade costumam valer tanto quanto, ou mais, do que o talento. E por isso podemos vencer.

A menos claro, que estejamos decididos a perder, para podermos acrescentar novos vilões à galeria. Afinal, qual é graça de não ter ninguém para apontar o dedo, além de nós mesmos?



quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um mundo perfeito


De toda a enxurrada de argumentos que ainda incensam a agora já minguante onda de revolta com a realização da Copa do Mundo (digo, Copa do Mundo da FIFA, avisaram que é obrigatório citar a FIFA), me deparei com um que mereceu atenção especial: de que, ao prestigiá-la, estaríamos sendo coniventes com os desmandos da entidade-mor do futebol e com todos os possíveis casos de corrupção relacionados à organização do torneio. Pior, considerando que inclusive morreram operários nas obras da copa, a cada jogo que assistíssemos, estaríamos passando a mensagem de que não nos importamos com gotas de sangue misturadas ao concreto dos nossos circos.
Numa primeira análise, o argumento parece bem difícil de ser refutado. E não é válido apenas para o caso da Copa do Mundo (da FIFA!). Se houvesse boicotes aos produtos de todas as empresas envolvidas com ilícitos, elas acabariam quebrando. Logo, deixar de consumir seria o meio mais eficaz de protesto.
Como o caminho parece cristalinamente adequado, vamos tentar seguir por ele. Porém, colocar em prática essa teoria, com justiça, só será possível se os nossos julgamentos morais forem infalíveis. Melhor explicando: precisamos ter certeza de que não agiremos contra partes inocentes, com base em conclusões apressadas ou equivocadas. Aliás, falando em base, logo nos lembramos de um caso famoso (olha o link!) que demonstra melhor do que qualquer filosofia os perigos de adotar atitudes extremas confiando em boatos, fontes secundárias, ou no senso comum.
Isso apenas ilustra um fato que pode ser um choque para a maioria das pessoas: nem sempre estamos certos sobre tudo. Assim, é impossível que sejamos absolutamente justos. Claro que podemos colocar os pés no pragmatismo, ou quem sabe no maquiavelismo, e assumir que mesmo não estando sempre certos, estaremos na maioria das vezes. Afinal, somos espertos e bem informados. Ainda que cometamos um erro ou outro, na média, cortaremos mais ervas daninhas do que raízes saudáveis.
Satisfeitos com essa vantagem matemática, poderíamos iniciar uma cruzada de absoluta honestidade ideológica. Um bom primeiro passo seria uma radical mudança nos padrões de consumo. Afinal, a grande maioria, se não todas as grandes empresas, estão constantemente envolvidas em denúncias de corrupção, ou, no mínimo, respondendo a processos sobre infrações trabalhistas e sonegação fiscal. Isso para não falar das violações aos direitos dos consumidores. A mesmíssima lógica que fundamenta a natimorta proposta de boicote à Copa do Mundo (da FIFA) deveria ser aplicada às empresas de telecomunicações, cujo processo de privatização foi alvo de tantas ou mais denúncias de irregularidades do que as obras do torneio de futebol. Também não poderíamos utilizar o metrô em São Paulo, ou os ônibus no Rio de Janeiro. E de modo algum pagar impostos, pois “todo mundo sabe” que grande parte do que pagamos acaba sendo desviado e financiando a corrupção.
Pode até ser que alguns poucos reúnam a fibra moral e capacidade de auto-sacrifício suficiente para agir dessa maneira. O que seria fútil, pois se afastariam de tal maneira da sociedade que não teriam a menor possibilidade de transformá-la. Na prática, a tentativa de impor padrões como esses acaba constrangendo e afastando as pessoas. E o objetivo do discurso deve ser esse mesmo. “Reclama que o estádio foi superfaturado, mas assistiu ao jogo? Não pode reclamar!” “Falou mal da Guerra do Iraque, mas foi passear na Disney? Hipócrita!”
A verdade é que precisamos viver neste mundo enquanto tentamos mudá-lo. Até porque não temos outro. E não é um mundo fácil: é complexo, contraditório, injusto, imperfeito. Assim como nós. Mas o fato de não podermos ser todos Gandhis ou Mandelas não significa que precisamos nos resignar a ser Homer Simpson. Claro que devemos evitar as grandes incoerências. Ser honestos, antes de reclamar da corrupção. Juntar nosso lixo, antes de reclamar das ruas sujas. Enfim, lutar as pequenas batalhas. Mas sem a pretensão de sermos os juízes e guardiões da moral humana. Se ao final de cada dia tivermos sido autênticos o bastante para passar no nosso próprio julgamento, e sentirmos que ainda há coragem para lutar no dia seguinte, já poderemos nos orgulhar. Não por termos saído da escuridão, mas por insistirmos em brilhar, mesmo quando mergulhados nela. 



sexta-feira, 6 de junho de 2014

O último a saber


O brasileiro médio tem um prazer especial em achincalhar seu próprio país. Nosso já tradicional complexo de vira-latas recentemente foi acrescido de um inusitado gosto pela autoflagelação. E essa autêntica mania nacional foi impulsionada pelo trágico, lamentável, abominável fato de que estamos prestes a sediar uma Copa do Mundo.
E os argumentos anti-copa são bem convincentes:
1. Muitas obras prometidas não ficaram prontas;
2. O que foi feito, atrasou, e custou bem mais do que o planejado;
3. Temos coisas mais importantes para investir do que em estádios de futebol;
4. Não temos estrutura decente para receber tantos turistas. A mobilidade urbana é trágica, nossos aeroportos insuficientes, a segurança pública, melhor nem comentar.
Tudo isso é verdade. Mas nada disso é “culpa” da Copa do Mundo, tampouco há a mínima lógica em imaginar que a não realização da copa nos traria algum benefício.
Vamos enfrentar logo de cara um argumento que parece incontestável: o dinheiro gasto na Copa poderia ter sido aplicado na saúde e na educação.
Poderia mesmo. Mas, quanto será que se investe na saúde e educação? Aliás, será que algum ativista anti-copa já leu alguma vez na vida a lei orçamentária da União, do seu Estado, ou do Município, só pra ter uma ideia da magnitude dos valores?
Vamos poupá-los do trabalho: o gasto público anual com saúde e educação (tem um link aqui, ok?) é de quase QUINHENTOS BILHÕES de reais.
Somando o custo dos estádios e das demais obras da copa, temos um total de 25 bilhões de reais. Mesmo supondo que o evento não dará um único centavo de retorno, isso representa somente 5% do orçamento anual com saúde e educação.
Agora, será que alguém acredita mesmo que investir o dinheiro da Copa em saúde e educação resolveria alguma coisa? Simples assim?
Um estrangeiro que leia certos comentários na Internet deve pensar que, antes que nos amaldiçoassem com a organização da Copa do Mundo, o Brasil era um paraíso: as obras públicas ficavam prontas no prazo, não tinha corrupção, tudo funcionava. Ou pelo menos estava a ponto de funcionar, bastaria ter investido bem esses 25 bi, que era tudo de que precisávamos pros retoques.
Apenas para clarear ainda mais a insignificância do “custo Copa”: a União pagou em 2013 DUZENTOS E CINQUENTA BILHÕES DE REAIS em juros da dívida pública. Dívida que é gerada em grande parte vendendo títulos públicos pros banqueiros e pagando a eles juros mais altos do que a viúva cobra para financiar as grandes empresas via BNDES.
Nossa, é bem mais do que se gastou com a Copa do Mundo. E sai pelo ralo todo ano. Por que será que ninguém está falando disso?
Na verdade, não temos raiva da Copa "só" porque ela é mais uma oportunidade para o mau uso do dinheiro público. No fundo, sabemos que oportunidades melhores aparecem e estão sendo aproveitadas todos os dias, por décadas, por séculos.
Também não temos raiva da Copa porque o dinheiro gasto com as obras pedidas pela Dona FIFA poderia resolver os nossos problemas com saúde, educação, transporte, segurança. Ninguém acredita nisso.
Temos raiva da Copa pelo mesmo motivo que leva o marido traído a queimar o sofá da sala: ela nos obrigou a saber de coisas que preferíamos ignorar. Jogou na nossa cara uma realidade que não queremos encarar, porque não estamos realmente dispostos a modificar.
Como assim? Então, os bons cidadãos não querem que tenhamos um país melhor? Com mais eficiência, menos corrupção? Em que as coisas funcionem como no primeiro mundo?
Olha, podem até querer. Mas desde que eles não precisem mover uma palha pra isso acontecer. Porque, no fim das contas, como se expressa toda essa revolta da sociedade contra a Copa?
Temos uma minoria que anda por aí quebrando vitrines de bancos, queimando lixeiras e hostilizando jornalistas. Com certeza eles também vão tentar praticar algumas depredações durante a Copa. O grande objetivo desse grupo deve ser que as lixeiras queimadas sejam substituídas por outras com padrão FIFA e que os bancos instalem vitrines à prova de balas. Coisa de primeiro mundo.
Felizmente, a grande maioria da população expressa sua revolta de forma mais pacata: xingando muito no twitter e compartilhando coisas no facebook. Os mais indignados pregam a solução final: nunca mais votar no partido “x”. Provavelmente vão votar no “y”, que no passado também tentou trazer a Copa pro Brasil, sem sucesso, ou no “z”, que outro dia mesmo era aliado do “x”, que também já esteve antes do lado do “z”, e se perder as eleições amanhã estará junto de qualquer um dos outros dois, com o mesmo sorriso de sempre.
Não é essa, porém, a mensagem da Copa. E por dizer algo diferente é que ela nos irrita. O que ela diz, o que não queremos escutar, é que mesmo com todas as nossas mazelas, podemos ser grandes. Mas para isso precisamos mudar. Assumir nossas responsabilidades, o que não fizemos até hoje. E, no caso dos problemas da Copa, não temos como dizer que “não sabíamos”. Fomos avisados, com insistência, até. Mas não fizemos nada. Nunca fazemos nada, além de botar a culpa nos outros e alimentar a ilusão de que tudo vai melhorar nas próximas eleições.
Pois as chances disso acontecer são as mesmas da Austrália vencer a Copa do Mundo. O “caçador de marajás” não levou o Brasil pro primeiro mundo, nem o Doutor da Sorbonne. O Messias Barbudo também não conseguiu, muito menos a Gerentona. Agora estamos esperando por quem, pelo Batman de toga? Pelo Capitão Nascimento?
Quem sabe conseguiremos aprender alguma coisa com a Copa. Se não, que aprendamos com as Olimpíadas. Ou podemos continuar deixando as raposas tomando conta do galinheiro, e trocar as raposas de quatro em quatro anos. E continuará nunca sendo culpa nossa. Afinal, temos mais o que fazer do que ajudar a tomar conta do nosso próprio país.
Finalizo com uma adaptação da “oração da serenidade”, desejando que:

Sejamos sábios o bastante para aceitar as coisas que não podemos modificar;

Corajosos o bastante para modificar aquelas que podemos;

E estúpidos o bastante para jamais sermos convencidos de que há alguma diferença entre as duas. 



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Diga que não é verdade

Juro que quando me contaram que o principal economista de um dos candidatos à Presidência da República teria afirmado, em pleno período pré-eleitoral, que o salário mínimo estava muito alto eu pensei que era trollagem, “intriga da situação”. Pelo sim, pelo não, resolvi clicar no link, crente que ia me deparar com aquele tradicional cidadão:


Quem dera! Na boa, preferia mesmo que fosse piada. Afinal, melhor cair numa pegadinha de vez em quando do que viver eternamente num cenário de comédia pastelão. Porque, vejam vocês, na verdade o catedrático não disse exatamente que o salário mínimo estava muito alto (ufa!?), mas sim que O salário mínimo cresceu muito ao longo dos anos.


É, também não entendi! Precisaremos pesquisar um pouco, em duas etapas. A primeira: por mais que “muito” seja um termo um tanto subjetivo, será que o salário mínimo tem crescido mesmo nos últimos anos? E, se isto for verdade, o que será que o economista pretende concluir a partir dessa constatação?
A primeira etapa é fácil, afinal, como ensina na mesma entrevista o mestre-doutor-pica das galáxias no ramo, é questão de fazer conta. De fato, desde 1995, o salário mínimo tem experimentado ganhos reais. A evidência se sustenta com qualquer tipo de comparação: valor em dólar, poder de compra, salário mínimo x índice de inflação, etc..
Opa, mas isso é bom, não é? Ainda mais se tiver crescido “muito”, como ele disse. Vamos estabelecer um método para inferir se realmente cresceu “muito”? Na verdade, nem precisamos inventar nada, porque a nossa Constituição já determinou que o salário mínimo deve ser suficiente... ora, para o mínimo! Vamos ler a Constituição?

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais (...):

IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social (...);

Agora ficou fácil. Se a Constituição define as necessidades básicas que precisam ser supridas pelo salário mínimo, o tal “mínimo existencial”, e o pica das galáxias está dizendo que o valor cresceu muito, concluímos que o salário mínimo com certeza ultrapassou o patamar ideal, de acordo com a Constituição. Está dando pra comprar tudo isso aí, e ainda sobra.
Estranho. Felizmente, não preciso sobreviver com um salário mínimo, mas R$ 724,00 me parece muito pouco dinheiro pra tanta coisa. Devo estar vivendo em outra realidade, mal acostumado, cercado de luxos. Afinal, não é possível que o Eminente esteja falando bobagem. Pior que tem pesquisador (deve ser comunista) insistindo que o valor ainda está baixo, que devia ser pelo menos quatro vezes maior! Como pode?
Bem, o importante é que, malgrado as intrigas da situação, o Iluminado afirma que já cresceu muito. Vamos, pois, para a segunda etapa: o que diabos ele pensa sobre isso?
Pela lógica, se consideramos que cresceu muito, é porque deveria ter crescido menos. E se tivesse crescido menos, estaria mais baixo. Logo, os que contaram a história um pouco diferente não estavam errados, apenas adiantaram a conclusão: o salário mínimo cresceu muito, logo o valor ficou alto. O próprio entrevistado dá uma dica da sua linha de pensamento, dando a entender que esse salário mínimo pode “engessar o mercado de trabalho”, “que o vínculo do salário mínimo com a previdência tem um custo”.
Imagino que, assim como eu, o nobre economista não precise sobreviver com um salário mínimo mensal. Bom pra nós. 
Porém, não como eu, ele parece ser incapaz de entender que a questão comporta, no mínimo, dois pontos de vista. Porque, convenhamos, para dizer que o salário mínimo está “alto”, ou o cidadão não sabe fazer conta, ou demonstra um completo alheamento, desprezo (pode substituir por qualquer outra palavra ou expressão que signifique “tô nem aí”), ao fato de que, além de pessoas (empresários, com os quais ele deve estar acostumado a conviver) que pagam um salário mínimo, também existem, em número muito maior, inclusive, pessoas que recebem um salário mínimo. Gente com a qual ele não deve estar acostumado a conviver. Mas que existem de verdade, não são apenas números numa planilha, variáveis incômodas numa equação que ficaria muito mais bonitinha aos olhos do gênio das finanças se ele pudesse cortar um tanto desse salário tão alto, mais outro tanto de direitos previdenciários, aumentar a jornada de trabalho... quem sabe, copiar as leis chinesas? Para estimular a produtividade?
Mal posso esperar o início da propaganda eleitoral na televisão. Espero que o candidato com sobrenome de grife escute as brilhantes ponderações do seu Coordenador Econômico e inicie a campanha prometendo reduzir o salário mínimo e os valores das aposentadorias. O povo brasileiro anda precisando dar umas boas risadas.



quinta-feira, 15 de maio de 2014

Os insondáveis desígnios da mente humana


Se há algo de realmente extraordinário nos seres humanos, é a capacidade de constante superação. Honestamente, acreditava que tão cedo ninguém seria capaz de superar no quesito vergonha alheia o texto de que tratamos no último artigo do blog, sobre as dificuldades dos liberais para consumarem coitos. Mas eis que, não mais de duas semanas depois, me deparo com um emocionante editorial de louvor ao agronegócio brasileiro.
Até aí nada demais, afinal, é bem provável que os donos do grupo de mídia que veicula essa opinião recebam polpudas verbas publicitárias dos magnatas do setor. O que realmente me causou espanto foi presenciar essa opinião reverberando nas redes sociais, como num surto de idolatria aos “guerreiros” dos campos deste Brasil.
Suponho, claro, que os idólatras não são os próprios fazendeiros disfarçados, mas cidadãos comuns, admirados com a potência empreendedora dos salvadores da pátria. Firmada essa premissa, não posso deixar de imaginar uma singela alegoria, protagonizada pelo simpático Arturzinho.
Nosso herói é um nerd que, por uma dessas trapaças do destino, acabou se alojando numa república cheia de gente descolada e com um elogiável histórico de sucesso na interação social. Doido para se integrar e também usufruir dos benefícios da popularidade, Arturzinho dá o maior apoio aos seus parceiros. Paga, claro, a sua parte nas despesas normais da república. E também banca, mais do que os outros, se necessário (e freqüentemente é necessário), as muitas festas que enchem a casa de mulheres desejáveis. Se for preciso (e é preciso com muita freqüência), empresta seu próprio quarto para os amigos maneiros dos seus colegas de república, ajudando-os assim a usufruir comodamente dos espólios colhidos na batalha. Além de tudo, é o que mais trabalha na organização da festa e na arrumação da casa. Enfim, é o homem que comanda os bastidores.
Percebe-se que o Arturzinho é um cara legal, todo mundo gosta dele. E ele se sente muito bem por ser tão querido. Só tem um problema: no final das contas, o Arturzinho, que tanto rala, acaba não pegando ninguém! E não satisfeito em somente viver nessa triste condição, ainda sai TIRANDO ONDA por morar numa república tão bacana, que vive cheia de mulher, e por ter um monte de amigos que estão traçando as mais gostosas da faculdade.
Claro que essa digressão foi só pra descontrair, e qualquer semelhança com os fãs dos agromagnatas não chega nem a ser mera coincidência. Agora vamos voltar ao tema.
Assim como o Arturzinho banca, em grande parte, a diversão dos seus amigos, o cidadão que está batendo palma para mais um navio carregado de soja pra lá, uma mala de dinheiro pra cá, também banca o agronegócio. Afinal, o setor é largamente financiado por dinheiro público e isenções tributárias. Quem não cabulou as aulas de História no segundo grau deve se lembrar da época em que o governo comprava café para evitar que o preço caísse, mantendo assim a prosperidade dos barões. Tanto tempo se passou, mas a justificativa da época não difere muito da hoje utilizada para as crescentes desonerações, benefícios e facilidades: eles merecem todo apoio, afinal, representam o "Brasil que dá certo”.
Creio não ter um grande tino para negócios, mas quem sabe, se me dessem terra de graça, dinheiro pra plantar quase de graça, isenção de uma série de tributos, alíquotas ridículas nos remanescentes (como é o caso do ITR) e o governo ainda comprasse minha produção ou perdoasse minhas dívidas de vez em quando, talvez eu tivesse alguma chance de prosperar também. Pena que ainda não era sequer nascido quando a coroa portuguesa distribuiu nossas terras entre seus amigos nobres, e nem prestei serviços relevantes ao Império (tipo matar índios) para ser agraciado com latifúndios.
“Ah, mas hoje é muito diferente. Na época, tinha até trabalho escravo. Hoje, a agricultura gera emprego!”
De fato, há diferenças. Naqueles tempos os agricultores e pecuaristas utilizavam o trabalho escravo legalmente. Podia até ser imoral, mas era legal. Hoje, uns poucos desviados do caminho da virtude (claro que isso é exceção) continuam usando, pena que de forma ilegal. Mas a solução do problema está encaminhada, eles estão loucos para mudar o conceito legal de escravidão. Aí sim, poderão se tornar iguaizinhos aos seus ancestrais. E merecerão mais ainda os vivas da plebe.

Diante de situações tão estapafúrdias, só me resta encerrar deixando, do alto de minha insuportável pretensão, dois conselhos:

- Para o Arturzinho: invista seu tempo e dinheiro em atividades que possam de fato ajudá-lo a gozar das mesmas diversões em que os seus colegas se esbaldam. O dinheiro, por exemplo, seria mais bem investido remunerando os serviços de boas e honestas profissionais liberais.

- Para os fãs dos grandes empreendedores rurais: se você quer ser como eles, mas não tem terra, não tem grana, nem é amigo do Rei, não se desespere. É só clicar aqui.