terça-feira, 19 de abril de 2016

Por um sentido na vida


E de repente era domingo, mas não um domingo qualquer. Era um dia em que ia acontecer alguma coisa muito importante, que ia ficar pra história, e todo mundo estava falando sobre isso.
E eu, pensando que todos os dias acontecem coisas muito importantes, que qualquer dia pode ser o dia mais importante na vida de alguém, me esforcei pra ver o que tinha de tão diferente nesse domingo.
E foi um domingo de sol, mas mesmo assim muita gente passou o dia na frente da televisão, o que até aí não é tão diferente do que costumam fazer em todos os domingos.
Mas também tinha um monte de gente na rua, como não em todos os domingos. E não era carnaval, nem micareta (acho). Na verdade dava pra separar em dois montes de gente, cada lado torcendo pra uma coisa. E lá em Brasília construíram até um muro pra separar um bando do outro.
E de repente dava pra perceber que o dia era, sim, um tanto diferente.
E o domingo chegava ao fim, e as pessoas se agitavam cada vez mais. Algumas comemoravam, com algazarra e palavrões. Outras se lamentavam, com choro e mais palavrões. Nada diferente do que já vira acontecer em outros domingos, mas desta vez não parecia ser por causa do futebol.
Ah, mas com certeza, se esse domingo foi mesmo um dia assim tão importante, no dia seguinte eu sentirei a diferença.
Mas, quando saí às ruas, não percebi nada. O vendedor de flores ainda estava no sinal da esquina, como na segunda anterior, e na outra antes desta. O morador de rua ainda estava no viaduto, arrastando o mesmo cobertor surrado de sempre, buscando restos nas mesmas latas de lixo.
Mas pare, espere, pense, todas as coisas do mundo não vão mudar assim, de uma hora pra outra. Algumas coisas já devem ter mudado, outras não. É só questão de procurar.
Então procurei, porque o mundo se estende muito além do nosso quintal. No sinal da minha esquina, o vendedor de flores continuava lá. Mas, na cidade de Montes Claros/MG, o prefeito não estava mais na Prefeitura. Havia sido preso por corrupção.
E esse prefeito, no domingo, havia sido citado como exemplo de gestão, naquela coisa que todo mundo estava assistindo na tevê, e em nome dele sua esposa bradou contra a corrupção. E na segunda, ele foi preso como corrupto. É, muita coisa mudou pro prefeito, e pra mulher do prefeito, de domingo pra segunda.
E fiquei sabendo, também, que além da deputada que louvou a virtude do marido preso por corrupção, teve também um deputado que exaltou a ditadura, e homenageou um assassino e torturador. E aí outro deputado, por causa disso, ou por causa de outra coisa, ou por causa disso e também por causa de outras coisas, foi lá e cuspiu no deputado que gosta de torturador e gosta da ditadura.
Ah, e o deputado que cuspiu no deputado que gosta de torturador e gosta da ditadura, apesar de ser homem, gosta de outros homens. Não aquele gostar no sentido fraternal, cristão, mas aquele gostar proibido para menores, que só pode passar na televisão depois da meia noite (na internet pode passar o dia todo!). E parece que para algumas pessoas o fato desse deputado gostar de outros homens é mais importante do que o fato do outro gostar da ditadura e de torturadores, e cuspir nos outros (a tempo, que nojo! Sua mãe não te deu modos, menino?) é mais grave do que exaltar a tortura, o que eu achei estranho pra caramba, mas, poxa, bem que me avisaram que não seria um domingo como outro qualquer.
E de repente comecei a achar que o fato tão importante esperado para o domingo devia ser o arranca rabo desses dois, porque só se falava nisso.
E, no meio do assunto, percebi que mais uma coisa havia mudado: o monte de gente que até domingo falava coisas do tipo “se o Darth Vader é malvado isso não é desculpa pra ninguém ser malvado também”, começou a “aliviar” a apologia à tortura, porque um tal de Stalin também torturou, um tal de Che também matou.
Fiquei sem saber como eles pensam, fiquei em dúvida até se pensam mesmo, se estão tentando me enganar, ou a si próprios. Bem que me avisaram que não seria um domingo como outro qualquer!
E descobri, pra completar, que o povo que passou o dia na frente da tevê ficou horrorizado com “nossos” deputados, que não sabem nem falar, que pensam que o plenário é igreja, que exaltam a ditadura, que trocam xingamentos, empurrões e cusparadas, quando deviam estar ali resolvendo os problemas do país.
E de repente podem ter começado a pensar que “só” trocar de presidente (ah, por isso que o dia era especial, como não lembrei antes?) pode não ser assim tão importante como eles tinham pensado, porque também precisamos trocar de deputados, e tem mais de 500 deputados, e será que precisamos de tantos, e como esse pessoal que nem sabe falar direito virou deputado, e está decidindo a nossa vida em nome do evangelho quadrangular, da BR-429, do aniversário da Ana, minha neta Ana, pela memória de um torturador, ou porque a soberba procede (isso me deu câimbra nos ouvidos) a queda?
E de repente, fiquei aqui pensando que esse domingo pode mesmo ter sido muito importante.




quinta-feira, 14 de abril de 2016

Jovens demais para morrer


Em nossas breves e espaçadas experiências quase democráticas, já tivemos impeachments, renúncias, suicídios, mortes mal explicadas, poucos avanços e múltiplos recuos. Tivemos governantes depostos sob a mira de fuzis, e outros que nem precisaram ser derrubados, pois cederam ao próprio desequilíbrio. Tivemos um presidente que nunca foi, substituído por outro que, sem ter sido eleito sequer para um mandato, ficou no centro do poder por três décadas. Já tivemos quase de tudo, e ainda estamos por aqui.
Para quem já passou por tanto, não é uma mera votação com tons circenses e espetaculosos num domingo que ameaça a democracia. Antes, o fato de que o futuro de um governante será decidido num balcão de negócios, onde a virtude escasseia nos dois pólos, isto sim já é a pior das derrotas.
Um provável impeachment não será a morte da democracia, como alardeiam os defensores do atual governo, porque o que ainda não nasceu não pode morrer. Tampouco será o dia em que “tomaremos nosso país de volta dos vermelhos”, devaneio dos que marcham ao largo do pato holandês pirateado pela FIESP, pois não se pode recuperar o que nunca foi seu, nem tomar de volta de quem também jamais possuiu coisa alguma, além de uma efêmera ilusão de poder.
O que não significa, em absoluto, que não tenhamos nada a perder. Houve pequenas conquistas na nossa quase democracia, conquistas que agora se esvaem a cada dia, a cada ato de intolerância, a cada golpe baixo, a cada ferimento que sofrem as instituições.
E, para marcar tanta derrocada, eis que ergueram um muro na frente do Congresso, para que cada torcida fique de um lado, cada um tão cheio de certezas, cada um tão ávido por sentir raiva de quem está do outro lado.
E eis que ergueram esse muro, para tornar ainda mais patética e esquizofrênica a disputa pelo que resta da pilhagem, travestida de processo constitucional, luta pela democracia, embate contra a corrupção, luta de classes, ou o título pomposo mais ao gosto do freguês.
E ali estará, até domingo pelo menos, esse muro, para materializar a divisão entre os “vermelhos” e os “verde-amarelos”, e para mascarar as diferenças que realmente importam: entre os que estarão no gramado e os que estarão nos plenários, entre os que conduzem e os que são conduzidos. Entre os que tem poder de verdade e os que não tem nem nunca tiveram nada, além do direito de se indignar (nem sempre) e de sonhar.
E cada pessoa de cada lado do muro acredita de todo coração que está do lado certo, e de que vai vencer.
Não teriam pensado o mesmo os jovens que, há mais de vinte anos, saíram às ruas para derrubar outro presidente? Estariam hoje esses jovens, não mais tão jovens, pensando em quantos presidentes precisarão ser derrubados? 
Quem vencerá no domingo não será a multidão de bandeira vermelha, após 13 anos menos famintos, mas ainda sem teto, sem terra, sem país. Nem a multidão de verde-amarelo, que levanta faixas contra a corrupção ao lado de Eduardo Cunha, e quer acreditar num novo país com os mesmos atores do capítulo anterior.
O passado se repete como farsa, a caminho da tragédia. Mas talvez ainda haja tempo para escapar, se percebermos, apenas por um instante, o quanto estamos ferrados. Pena que ninguém se arrisca a levantar a cabeça, ocupados demais em discutir qual lado tem mais acusados de corrupção, quem terá sido mais incompetente, em que cenário nosso futuro será menos calamitoso.
Gostaria de acreditar, como os vermelhos, que vale a pena lutar pela ressurreição de um governo que não acreditou no próprio discurso, que trocou a esperança pelo cinismo, que se aliou ao que havia de mais retrógrado na política brasileira, e agora está sendo chamado a pagar o preço das suas escolhas. Gostaria ainda mais de crer, como os verde-amarelos, que o iminente fim desse governo iniciará uma nova era, com elevados padrões éticos, mas ainda que quisesse ser tão ingênuo, eis que vem Paulo Maluf como bastião da integridade, mudando de lado na última hora, para que nem os mais fronteiriços possam crer que um amanhã melhor está para chegar.
Sempre haverá, porém, o dia depois de amanhã. Quando a poeira baixar, quando o muro for desmontado, quando a raiva se tornar uma lembrança distante, quando os diferentes voltarem a ser percebidos como iguais, poderemos reconstruir.
Quanto tempo isso vai demorar, o quanto vamos sangrar até lá, quem poderá saber? Mas se há algo pelo qual vale a pena lutar a partir da segunda-feira, é para nos livrarmos o quanto antes dos escombros dos muros que hoje nos dividem.

P.S.: Para que os viciados em pensamento binário possam me colocar de um dos lados do estúpido muro, e xingar a vontade, complemento que, se deputado fosse, votaria contra esse atual pedido de impeachment, que para ter o mínimo de seriedade precisaria no mínimo incluir o vice-presidente, já que PT e PMDB foram cúmplices tanto nas “pedaladas” quanto no suposto uso de dinheiro de propina na campanha.


sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Dez coisas que eu odeio em você


Nos últimos dias, viralizou nas redes o texto de um norte-americano que, após viver por alguns anos no Brasil, decidiu partilhar suas impressões, um tanto críticas, sobre a cultura nacional. Ele creditou a maior parte dos problemas do país aos padrões de comportamento vigentes por aqui: o “jeitinho”, a vaidade, a leniência com a corrupção, o pouco ânimo para confrontos, o vitimismo.
Como nós, brasileiros, adoramos quando falam mal de nós (só não gostamos mais disso do que de falar mal de nós mesmos, e só o que gostamos mais do que falar mal de nós mesmos é fazer isso na terceira pessoa), vieram os previsíveis aplausos para o americano. Também houve vozes dissonantes, mas de modo geral a repercussão parece ter sido mais positiva do que negativa.
Embora reconheça os méritos do autor ao produzir uma crônica que em instantes se tornou popular, e reconhecendo a importância da discussão que desencadeou (tanto que também compartilhei o texto), não compactuo com a conclusão, bem chutada, de que “nós” somos o problema. Do mesmo modo que não me alinho ao “pachequismo” de não aceitar críticas, ou de ficar eternamente jogando a culpa nos portugueses, nos holandeses, nos ianques, na revolução bolivariana. A discussão em torno desses dois pólos conduz a lugar nenhum, exceto a uma variante do enigma de Tostines: o Brasil tem problemas há séculos por causa da cultura, ou a cultura é assim porque o Brasil tem problemas há séculos?
Ora, não faz diferença nenhuma se a culpa é dos colonizadores, da família imperial, do Fidel Castro ou do Rockfeller. O português não vai voltar aqui pra consertar o que tiver estragado; mesmo porque, depois do português, tantos outros já vieram aqui para se divertir, levar nosso dinheiro, e ainda deixar uns palpites como cortesia. Quem precisa resolver a parada somos nós mesmos (de preferência, falando na primeira pessoa). E dificilmente avançaremos com vira-latismo ou autoflagelação.
Claro que não podemos ignorar as pequenas coisas, que nem são tão pequenas assim. Como seria bom um país sem furadores de fila, sem roubadores de troco, sem pilotos amadores de fórmula 1 ignorando sinais vermelhos e faixas de pedestres, sem carros estacionados em lugar proibido. Um país em que votos não fossem trocados por presentes e cargos públicos, em que não coexistissem a revolta com a corrupção alheia e a complacência com os próprios desvios. E como seria bom se pudéssemos mudar tudo isso só repetindo, dia após dia, que nossa cultura é um lixo, que precisamos ser mais educados mais respeitosos mais cidadãos etc. e tal. Mas, se “o brasileiro” não tem cidadania porque nunca foi tratado como cidadão, ou vice-versa, já não importa, pois não é crível que consigamos separar um fator do outro.
Por exemplo, a sonegação: jurídica e moralmente, é condenável? Sem dúvida. Mas não vamos reduzi-la sequer em milésimos de centavos apenas com outdoors e palavras de ordem. Enquanto persistir a falta de transparência sobre a arrecadação e uso dos serviços públicos, a percepção generalizada de corrupção e mau uso dos recursos, jamais teremos uma sociedade comprometida a pagar corretamente os próprios impostos e combater a sonegação.
Aplicando esse raciocínio a tantas outras mazelas do cotidiano, pode-se inferir que o determinante maior do comportamento que virou estereótipo do "brasileiro" não é a vaidade, nem a ganância, tampouco o coitadismo. É a desilusão.
De que adianta ser tão honesto, se ninguém mais é? Por que não jogar lixo na rua, se ela já está imunda mesmo? E daí se o empresário está sonegando, que diferença faz se o dinheiro fica com ele ou com o governo? Não lembro nem em quem votei, mas não são todos iguais?
Podemos ficar décadas, gerações, lamentando por sermos tão ineptos, ou por termos sido tão explorados. Tanto faz, o fracasso será certo em qualquer dos caminhos.
Podemos continuar falando de nós mesmos na terceira pessoa e puxando a orelha do “brasileiro” que não sabe votar, não tem educação, não exerce a própria cidadania.
Ou podemos, só pra variar um pouco, tentar outra saída: combater a desilusão.
Podemos, só pra variar, acreditar que se pararmos de jogar lixo nas ruas elas ficarão limpas. E, depois que estivermos convencidos, convencemos outras pessoas. Que um dia, de tanto insistirmos, acabarão acreditando também, e convencendo mais pessoas. Até que, como se fosse de repente, as ruas ficarão mesmo mais limpas.
Podemos, só pra variar, cultivar novas virtudes, em vez de ruminar velhos vícios.
Ou podemos continuar dando chibatadas nas próprias costas. Aliás, nas costas do “brasileiro’, esse nosso indesejável parente distante.


domingo, 14 de fevereiro de 2016

O último dos moicanos


Na era da hiperconectividade, a patologia da incontinência verbal se espalha mais rapidamente que o vírus Zika. As pessoas parecem contaminadas pelo desejo incontrolável de compartilhar suas ideias sobre tudo, mesmo quando só o que tem a dizer é “kkk” ou “Absurdo! Vergonha!”.
Mesmo acometido dia sim, outro também, pela compulsão de escrever, espero estar livre dessa epidemia. Resisto à tentação de emitir opiniões em 99% dos casos. Mas de vez em quando surge um “tema sobre o qual nunca havia pensado em escrever, mas me sinto forçado, após um surto de genuína indignação”. E, antes que 99% dos leitores se evadam, genuinamente indignados com tantas preliminares, melhor esclarecer logo que o assunto é a polêmica Uber x Taxistas, e os argumentos que pretendo discutir foram expostos neste artigo (clique se quiser seguir o link – precisa de cadastro na Folha/ Uol).
O texto chama atenção pelo currículo de quem o assina: deputado federal, ex-secretário municipal de transportes em São Paulo, enfim, o tipo de cidadão cujas ideias podem um dia se transformar em algo que sejamos obrigados a cumprir. E, sob o revelador título “Uber é concorrência ilegal e predatória”, o parlamentar expõe, em síntese, o seguinte:
1. O Uber pode provocar a extinção da categoria profissional de taxista;
2. O Uber utiliza motoristas não credenciados, e busca estabelecer regras diferenciadas para um sistema que já existe e tem normas definidas pelo Poder Público;
3. O Uber não cumpre as diretrizes (tarifas, regras e regulamentação) estabelecidas pelos governos municipais, e criou suas próprias regras, usurpando o papel das prefeituras;
4. Os motoristas do Uber não são submetidos a nenhuma avaliação, os pagamentos são feitos somente por cartão de crédito, e as tarifas são variáveis conforme a demanda;
5. Já existe um sistema regulamentado que funciona a favor do usuário, porque garante a qualidade do sistema e do preço, se houver fiscalização atuante das prefeituras (verdade, ele escreveu isto);
6. A tendência é que o monopólio, hoje estatal, passe para o Uber, com a desvantagem de que o povo elege o prefeito, mas não pode eleger quem comanda o Uber;
7. Há suspeitas de sonegação no pagamento de obrigações tributárias.
Após dividir mentalmente essas sentenças em categorias (possivelmente verdadeiras, mas irrelevantes; argumentos apresentados como contrários, mas que na verdade depõem a favor do aplicativo; e aqueles que parecem ter vindo diretamente de uma realidade paralela), estamos prontos para atacar as primárias teses da acusação.
O Uber pode extinguir os taxistas? Pode, assim como os carros prevaleceram sobre as charretes, o Netflix está fulminando as locadoras de vídeo, e a televisão reduziu os índices de natalidade. O futuro sempre chega. Mas os taxistas não serão vaporizados como os dinossauros, eles continuarão por aí, fazendo outras coisas. Alguns poderão até se cadastrar no Uber, ou inventar modelos de negócio melhores que o substituam.
Motoristas não credenciados? Carteiras de habilitação são concedidas por órgãos estatais. Talvez “credenciamento” signifique pagar uma licença, preencher formulários, alimentar a burocracia. Que, além de faminta, se ofende também com a existência de “regras diferenciadas” para um sistema já normatizado pelo poder público. 
Se essas normas públicas garantissem a satisfação da clientela, os taxistas não teriam com que se preocupar. Mas de que servem regras, controle, fiscalização, se mesmo assim o serviço “alternativo”, “clandestino”, oferecer maior utilidade aos usuários?
Seguimos nos deparando com afirmações estranhas, como o “problema” de só aceitar cartões de crédito, o que tende a aumentar a segurança nas duas pontas; tarifas variáveis conforme a demanda, verdadeiro atentado contra a economia planificada que, pensei eu, havia ruído com o Muro de Berlim; e a afronta de desafiar um modelo que já garante melhor qualidade e preço. Só os usuários que não perceberam e preferem migrar para um novo serviço, apesar de toda a perfeição do que já existia.
Precisamos concordar, todavia, que não iremos “eleger” quem comanda o Uber. Mas podemos provocar a falência desta e de qualquer outra empresa, parando de utilizar seus serviços. Aliás, também não podemos eleger de verdade o prefeito ou qualquer outro governante, porque o voto vale muito menos que a grana.
Quanto a “suspeitas de sonegação”, o mesmo raciocínio se aplica a “n” empresas, muitas bem mais que apenas “suspeitas”. No caso específico do Uber, o detalhe de aceitar pagamentos apenas com cartão de crédito inclusive dificulta a sonegação. Além disso, os motoristas pagam tanto IPVA como ICMS na compra dos veículos, enquanto os taxistas gozam de isenção desses impostos. Tentar conduzir o debate contra o Uber no campo tributário é uma aposta ousada na ignorância de todos que estão do outro lado da mesa.
Não foi, porém, a superficialidade dos argumentos que me indignou, muito menos o viés anti-Uber (aliás, nunca nem usei esse tal de Uber), mas sim o subtexto: a defesa de um modelo de Estado que tem seu fim em si mesmo. Indignação que nasce não por estar diante de uma rematada bobagem, de uma concepção anacrônica, ou de uma falácia cristalina; mas da frustração de não poder dizer que o parlamentar está errado desta vez. Pelo menos, não no mundo real.
Estivéssemos numa sala de aula, ou num clubinho de debates, esse discurso não resistiria aos mais triviais princípios da Teoria Geral do Estado: “o objetivo maior do Estado é a busca do bem comum, os controles sociais devem prezar a eficiência e a justiça”, coisas assim. Mas as decisões de verdade não acontecem na Academia. Do lado de cá dos livros, “o sistema trabalha para resolver os problemas do sistema”.
Não sei quem vencerá a queda de braço Uber x Táxi, se é que haverá vencedor; mas sei que, quando o Estado vigente é um Estado que trabalha para si mesmo, que enxerga o anseio geral por mais liberdade e autonomia como um incômodo, cuja autoridade é um valor mais importante que o bem comum, quem sai perdendo é a sociedade.
Reclamamos, com frequência, dos serviços ruins do Estado, da gestão pública perdulária, dos casos de corrupção. Discutimos, com menos frequência, o quanto os governos deveriam intervir em nossas vidas. Um novo modelo de Estado não será gerado dentro da caixa, por políticos viciados em jogar pelas velhas regras, tampouco resultará de um pensamento travado em falsas dicotomias, como se todas as opções se reduzissem a modelos de laissez faire do século XIX ou ao totalitarismo dos antigos países socialistas.
Novos modelos demandam uma forma diferente de pensar. Precisamos entender o papel ideal do Estado, definir as atribuições que o conduziriam a esse modelo ideal, e assumir nossas próprias obrigações em relação a todo o resto – porque se pretendemos aumentar nosso poder, também aumentará nossa responsabilidade.
Só então poderemos construir um Estado que, abandonando a pretensão de tudo fazer e se concentrando no que é essencial, resgate seu verdadeiro propósito: perseguir o bem comum. Que nos ajude a empreender, trabalhar e viver, e que saiba se afastar quando estivermos, por conta própria, nos virando melhor do que seria possível sob suas rédeas.
  

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O despertar da força


Quem acompanha o blog deve perceber que encaro o futuro com otimismo. Não tenho dúvidas de que hoje estamos melhor do que há cinquenta anos, e sigo acreditando que, entre tropeços e quedas, estaremos ainda melhor daqui a mais algumas décadas.
Reconheço que é difícil acreditar nisso quando um ano se encerra e os destaques das tradicionais retrospectivas são atentados terroristas, guerras, epidemias, mares de lama (tanto literais quanto metafóricos). Mas mesmo os túneis mais escuros possuem uma saída, que podemos encontrar se começarmos a seguir os sinais certos.
O problema é que estes sinais, se existem, não se mostram da mesma maneira para todos. Enxergamos o mundo pelas nossas próprias e distorcidas lentes. Mesmo assim, por vezes há sinais tão claros que não conseguimos entender porque ainda estamos parados no mesmo lugar.
O que nos impede de seguir o caminho aberto pelos estudantes de São Paulo, que tiveram suas reivindicações atendidas após ocuparem mais de duzentas escolas em resposta a um decreto de “reorganização escolar” que implicaria no fechamento de unidades e transferência de alunos?
Eles conseguiram o que reclamamos desde sempre: exercer efetivamente a democracia. Confrontados com uma decisão arbitrária do governo, que afetaria diretamente suas vidas, decidiram não aceitá-la. Lembraram-se do que a maioria de nós esquecemos, ou nunca soubemos: que a existência do Estado só se justifica se for para servir à sociedade.
Tomaram de volta o que já era deles. O decreto foi revogado. O secretário responsável pela “reorganização”, vendo frustrado o propósito de impor sua visão superior aos incômodos governados, caiu. Os alunos continuam e continuarão nas mesmas escolas.
Se derrotas tem muito a nos ensinar, podemos aprender ainda mais com as vitórias. Quais foram os motivos que levaram ao sucesso dos estudantes? Poderíamos imitá-los e nos mobilizar para influenciar outras decisões de governo e ter o mesmo êxito em campos tão diversos como o combate à corrupção, a melhor prestação de serviços públicos, a transparência e moralização da política?
Para responder, precisamos antes refletir se estamos dispostos a nos dedicar a estas batalhas como os estudantes se engajaram na luta pelas suas escolas. É provável que 99% da sociedade afirmará enfaticamente condenar a corrupção. Porém, um percentual desprezível se disporá a sair às ruas, monitorar o uso dos recursos públicos, ocupar o Congresso, enfim, a adotar atitudes efetivas para atingir o objetivo que afirmam almejar.
Comparando a luta pelas escolas e a revolta generalizada com “tudo isso que está aí”, há pelo menos uma diferença fundamental: no caso dos estudantes, havia uma demanda claramente definida, e uma projeção cristalina de como seria o futuro no caso de sucesso ou fracasso. Entre a opção de nada fazer e perderem suas escolas, ou assumirem o risco de enfrentar o governo, preferiram o enfrentamento.
Não parece assim tão complicado decidir entre uma derrota certa e a possibilidade, ainda que remota, de vitória. Mas esse quadro se torna nebuloso quando tratamos de temas genéricos, ou intangíveis.
Sonhos podem mobilizar pessoas, mas apenas se forem pintados com cores vivas o suficiente para que seja possível acreditar neles. Entre o mundo que temos e aquele que queremos há um abismo muito mais difícil de atravessar do que aquele que foi cruzado pelos estudantes paulistas para não perderem suas escolas. O que nos separa de um admirável mundo novo, porém, não é apenas o fato dele parecer estar tão longe que não conseguimos vê-lo, mas antes nossa incapacidade de crer que outro mundo é possível.
Cegos para as pontes imaginárias entre pequenas batalhas e grandes conquistas, nos refugiamos no ceticismo e na resignação. Sabemos que grandes jornadas começam com o primeiro passo, mas ninguém pretende expor os pés descalços a uma trilha de espinhos sem saber o que aguarda no final do caminho. Se pretendemos alcançar um novo lugar, precisamos antes saber exatamente para onde queremos ir.
Mas como rumar para um destino que não está marcado em nenhum mapa? Simples: o inventamos, assim como os estudantes inventaram um mundo em que suas escolas não seriam fechadas.
Precisamos construir uma nítida visão do futuro, tão clara que possamos senti-la se materializando a nossa volta pouco a pouco, em cada brasileiro que seja salvo da miséria, em cada árvore plantada, em cada palavra escrita e compartilhada, em cada sorriso de criança, em cada ato que reafirme a honestidade, em milhares de primeiros empregos, primeiros beijos e últimas esperanças.
E então nos amarramos a essa visão, tijolo por tijolo, assim como os estudantes se amarraram a suas escolas. 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Proteger e Servir


A imprensa tem uma especial atração por calamidades. Homicídios, estupros, chacinas, atentados terroristas e afins dominam as manchetes dia sim, outro também. Acostumamo-nos com esse submercado da morte, ao ponto de não termos mais nossa atenção despertada por “qualquer” tragédia. Pessoas morrem todos os dias. E, quanto mais notícias ruins recebemos, menos nos importamos com cada uma delas.
Porém, mesmo no turbilhão da superinformação, há acontecimentos que se revelam mais marcantes do que outros. Que sinalizam de forma única e contundente a profundidade do abismo em que nos enfiamos.
Sábado, dia 28 de novembro de 2015. Cinco jovens, não por merecimento, pobres, não por coincidência, negros, não por escolha, moradores de periferia, não por acaso, inocentes, foram fuzilados por policiais militares. Segundo a perícia, mais de cem tiros foram disparados contra o veículo das vítimas.
Nenhum deles levantara a voz, as mãos ou uma arma contra os policiais. Nenhum deles fora acusado de qualquer crime que “justificasse” a execução. Aliás, sequer foram abordados pelos policias; apenas pelas balas.
Não é o primeiro, nem será o último assassinato cometido por agentes da “lei”. Seria excesso de otimismo esperar que essa chacina em particular marque um ponto de inflexão que nos conduza a uma reforma das instituições de segurança pública, para que estas se dediquem, por fim, ao objetivo (teórico) que motiva sua existência: proteger os cidadãos. Ao contrário, como se nada houvesse acontecido no Rio de Janeiro, em São Paulo os policiais militares partem para a guerra contra estudantes.
Quantas mortes serão necessárias para que percebamos que a coisa toda está errada? Será que um estudante de onze, doze anos precisa engrossar as estatísticas de abatidos pelo Estado, para que nossos governantes percebam que não é uma boa ideia enviar tropas de choque contra adolescentes cujo único crime é lutar pelas suas escolas? Isso não é absurdamente óbvio?
Claro, não é óbvio para os políticos e comandantes da PM, assim como não parece ser para o “homem médio”. De outro modo não teríamos, mesmo após uma chacina tão absurda e desmotivada como a de Costa Barros, o tradicional comentário de que “não se vê tanta indignação quando é um policial que é morto”. Frase que demonstra, além de absoluta falta de empatia, alto grau de ignorância sobre o que deveria ser uma força policial. Assim como nos acostumamos com mortes sem sentido, também aceitamos com bizarra naturalidade a polícia como ela é, um instrumento de guerra, e nem nos damos conta de que isso é tudo que ela não poderia ter se tornado.
Com o perdão dos que entendem, desde sempre, qual a diferença entre um policial matar um inocente e um policial ser morto por um bandido, dedicarei umas poucas linhas a isto. Pois me convenci, após ler tantas vezes tal indagação, que ainda é assunto nebuloso para muitos.
Vamos tentar clarear o horizonte com uma analogia. O Homem-Aranha está combatendo o Doutor Octopus. Encurralado, o vilão recorre a um expediente traiçoeiro: com seus tentáculos mecânicos, derruba parte de um prédio, provocando uma chuva de tijolos sobre os pedestres. O escalador de paredes abandona a perseguição de imediato e, com sua teia, monta um escudo para proteger os cidadãos. Sua decisão é rápida, porque bastou seguir a premissa básica de sua atividade super-heróica: ele sai às ruas para ajudar as pessoas. Prender bandidos é o meio, e não o fim.
Policiais não são super-heróis, mas uma força de segurança pública só faz sentido de tiver como objetivo primeiro e último o mesmo seguido pelos super-heróis: defender os inocentes. Aliás, quem diz isso não sou eu nem o Stan Lee, as próprias instituições o dizem, ao menos no papel. Vejamos, por exemplo, a missão da Polícia Militar do Estado de São Paulo:
Proteger as pessoas;
Fazer cumprir as leis;
Combater o crime;
Preservar a ordem pública.
Vamos repetir: proteger as pessoas. Em primeiro lugar. A coisa mais importante que a polícia pode e deve fazer.
Portanto, quando um policial extermina as pessoas que deveria proteger, há uma ruptura fundamental no tecido da sociedade. Bandido matar policial é um crime bárbaro, lógico; mas o que se espera de um criminoso é que cometa crimes. O que se espera de um policial é que os impeça. Ou pelo menos que não os cometa.
E, num país em que deixamos de saber a diferença entre policiais e criminosos, em que pretos e pobres e jovens e jovens pretos pobres já enterraram amigos demais para que possam acreditar que ainda existe alguma diferença, só há uma certeza: pelas esquinas e favelas do Brasil, os corpos continuam caindo, sem saber de onde vem os tiros. Até quando?


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Admirável Mundo Novo


“No futuro todos serão famosos por 15 minutos.” Quando cometeu essa frase, na década de 60, talvez Andy Warhol soubesse que ela atravessaria décadas, e que ele próprio se tornaria um ícone do pós-modernismo e de um mundo que já migrava numa espiral de superinformação e superficialidade. Talvez até mesmo visualizasse a Internet, os reality shows, as guerras em que mísseis são disparados por comandos de videogame. Mas suspeito que, se estivesse vivo hoje, mesmo um visionário como Warhol se espantaria com a intensidade do alcance da sua profecia.
As celebridades instantâneas do século XXI não são mais apenas os vencedores do American Idol; agora, a morte e a destruição também são servidas em lata. Chegamos ao ponto em que se tornou mais importante discutir quais mortes “merecem” nossa lamentação e um registro na linha do tempo das redes sociais do que parar para refletir, por mais de 15 minutos, sobre o que nos tornamos e como pudemos, sem perceber, construir um mundo tão cínico e insensato.
Vamos, então, parar por 17 minutos e reconhecer que existe algo de profundamente errado num mundo em que inocentes são metralhados por fanáticos religiosos; e tampouco é muito promissor o mundo em que cidades inteiras são soterradas por um mar de lama, porque um punhado de executivos decidiu que aumentar as margens de lucro é mais importante do que preservar a vida. Como se não fosse o bastante, tudo isso se passou no mesmo mundo; e enquanto decidimos entre hastear a bandeira da França ou a do Brasil, mais 27 mortos no Mali.
As tragédias de Paris, Mariana e Mali tem muito em comum, além do rastro de corpos e da bizarra disputa por atenção midiática. Todas refletem o resultado da banalização da morte, do desprezo pela vida humana. Por Deus, por dinheiro, ou pelos dois; de repente, a única coisa real que temos se tornou desimportante, sufocada por coisas que inventamos.
E tudo parece tão complicado, e parece impossível encontrar uma solução que não demore, com otimismo, centenas de anos. Quantas décadas para recuperar um rio morto? Quantos séculos até formarmos gerações que deixem de acreditar numa recompensa divina para aqueles que derramam o sangue dos infiéis? Quantas guerras até vencermos a guerra que não sabemos como vencer?
Gostaria de dizer que é fácil, se tentarmos. Mas a verdade é que estamos viciados em autodestruição, e livrar-se de um vício nunca é fácil. Não viveremos o bastante para ver um mundo livre da insanidade e da ganância, e isso parece absolutamente frustrante. Podemos, contudo, um dia de cada vez, sermos sensatos e gentis. Podemos, um dia de cada vez, ensinar aos nossos filhos que não há paraíso no céu para aqueles que praticam o inferno na Terra. Podemos, um dia de cada vez, sufocar aqueles que vivem do ódio preenchendo o mundo com amor. 
E assim, um dia de cada vez, eles serão derrotados. Pois sempre haverá quem insista na alegria de viver.
(Eu não vou lhes dar o presente de odiar vocês.)
(Antoine Leiris, que perdeu sua esposa nos ataques em Paris.)