quinta-feira, 19 de junho de 2014

Um mundo perfeito


De toda a enxurrada de argumentos que ainda incensam a agora já minguante onda de revolta com a realização da Copa do Mundo (digo, Copa do Mundo da FIFA, avisaram que é obrigatório citar a FIFA), me deparei com um que mereceu atenção especial: de que, ao prestigiá-la, estaríamos sendo coniventes com os desmandos da entidade-mor do futebol e com todos os possíveis casos de corrupção relacionados à organização do torneio. Pior, considerando que inclusive morreram operários nas obras da copa, a cada jogo que assistíssemos, estaríamos passando a mensagem de que não nos importamos com gotas de sangue misturadas ao concreto dos nossos circos.
Numa primeira análise, o argumento parece bem difícil de ser refutado. E não é válido apenas para o caso da Copa do Mundo (da FIFA!). Se houvesse boicotes aos produtos de todas as empresas envolvidas com ilícitos, elas acabariam quebrando. Logo, deixar de consumir seria o meio mais eficaz de protesto.
Como o caminho parece cristalinamente adequado, vamos tentar seguir por ele. Porém, colocar em prática essa teoria, com justiça, só será possível se os nossos julgamentos morais forem infalíveis. Melhor explicando: precisamos ter certeza de que não agiremos contra partes inocentes, com base em conclusões apressadas ou equivocadas. Aliás, falando em base, logo nos lembramos de um caso famoso (olha o link!) que demonstra melhor do que qualquer filosofia os perigos de adotar atitudes extremas confiando em boatos, fontes secundárias, ou no senso comum.
Isso apenas ilustra um fato que pode ser um choque para a maioria das pessoas: nem sempre estamos certos sobre tudo. Assim, é impossível que sejamos absolutamente justos. Claro que podemos colocar os pés no pragmatismo, ou quem sabe no maquiavelismo, e assumir que mesmo não estando sempre certos, estaremos na maioria das vezes. Afinal, somos espertos e bem informados. Ainda que cometamos um erro ou outro, na média, cortaremos mais ervas daninhas do que raízes saudáveis.
Satisfeitos com essa vantagem matemática, poderíamos iniciar uma cruzada de absoluta honestidade ideológica. Um bom primeiro passo seria uma radical mudança nos padrões de consumo. Afinal, a grande maioria, se não todas as grandes empresas, estão constantemente envolvidas em denúncias de corrupção, ou, no mínimo, respondendo a processos sobre infrações trabalhistas e sonegação fiscal. Isso para não falar das violações aos direitos dos consumidores. A mesmíssima lógica que fundamenta a natimorta proposta de boicote à Copa do Mundo (da FIFA) deveria ser aplicada às empresas de telecomunicações, cujo processo de privatização foi alvo de tantas ou mais denúncias de irregularidades do que as obras do torneio de futebol. Também não poderíamos utilizar o metrô em São Paulo, ou os ônibus no Rio de Janeiro. E de modo algum pagar impostos, pois “todo mundo sabe” que grande parte do que pagamos acaba sendo desviado e financiando a corrupção.
Pode até ser que alguns poucos reúnam a fibra moral e capacidade de auto-sacrifício suficiente para agir dessa maneira. O que seria fútil, pois se afastariam de tal maneira da sociedade que não teriam a menor possibilidade de transformá-la. Na prática, a tentativa de impor padrões como esses acaba constrangendo e afastando as pessoas. E o objetivo do discurso deve ser esse mesmo. “Reclama que o estádio foi superfaturado, mas assistiu ao jogo? Não pode reclamar!” “Falou mal da Guerra do Iraque, mas foi passear na Disney? Hipócrita!”
A verdade é que precisamos viver neste mundo enquanto tentamos mudá-lo. Até porque não temos outro. E não é um mundo fácil: é complexo, contraditório, injusto, imperfeito. Assim como nós. Mas o fato de não podermos ser todos Gandhis ou Mandelas não significa que precisamos nos resignar a ser Homer Simpson. Claro que devemos evitar as grandes incoerências. Ser honestos, antes de reclamar da corrupção. Juntar nosso lixo, antes de reclamar das ruas sujas. Enfim, lutar as pequenas batalhas. Mas sem a pretensão de sermos os juízes e guardiões da moral humana. Se ao final de cada dia tivermos sido autênticos o bastante para passar no nosso próprio julgamento, e sentirmos que ainda há coragem para lutar no dia seguinte, já poderemos nos orgulhar. Não por termos saído da escuridão, mas por insistirmos em brilhar, mesmo quando mergulhados nela. 



sexta-feira, 6 de junho de 2014

O último a saber


O brasileiro médio tem um prazer especial em achincalhar seu próprio país. Nosso já tradicional complexo de vira-latas recentemente foi acrescido de um inusitado gosto pela autoflagelação. E essa autêntica mania nacional foi impulsionada pelo trágico, lamentável, abominável fato de que estamos prestes a sediar uma Copa do Mundo.
E os argumentos anti-copa são bem convincentes:
1. Muitas obras prometidas não ficaram prontas;
2. O que foi feito, atrasou, e custou bem mais do que o planejado;
3. Temos coisas mais importantes para investir do que em estádios de futebol;
4. Não temos estrutura decente para receber tantos turistas. A mobilidade urbana é trágica, nossos aeroportos insuficientes, a segurança pública, melhor nem comentar.
Tudo isso é verdade. Mas nada disso é “culpa” da Copa do Mundo, tampouco há a mínima lógica em imaginar que a não realização da copa nos traria algum benefício.
Vamos enfrentar logo de cara um argumento que parece incontestável: o dinheiro gasto na Copa poderia ter sido aplicado na saúde e na educação.
Poderia mesmo. Mas, quanto será que se investe na saúde e educação? Aliás, será que algum ativista anti-copa já leu alguma vez na vida a lei orçamentária da União, do seu Estado, ou do Município, só pra ter uma ideia da magnitude dos valores?
Vamos poupá-los do trabalho: o gasto público anual com saúde e educação (tem um link aqui, ok?) é de quase QUINHENTOS BILHÕES de reais.
Somando o custo dos estádios e das demais obras da copa, temos um total de 25 bilhões de reais. Mesmo supondo que o evento não dará um único centavo de retorno, isso representa somente 5% do orçamento anual com saúde e educação.
Agora, será que alguém acredita mesmo que investir o dinheiro da Copa em saúde e educação resolveria alguma coisa? Simples assim?
Um estrangeiro que leia certos comentários na Internet deve pensar que, antes que nos amaldiçoassem com a organização da Copa do Mundo, o Brasil era um paraíso: as obras públicas ficavam prontas no prazo, não tinha corrupção, tudo funcionava. Ou pelo menos estava a ponto de funcionar, bastaria ter investido bem esses 25 bi, que era tudo de que precisávamos pros retoques.
Apenas para clarear ainda mais a insignificância do “custo Copa”: a União pagou em 2013 DUZENTOS E CINQUENTA BILHÕES DE REAIS em juros da dívida pública. Dívida que é gerada em grande parte vendendo títulos públicos pros banqueiros e pagando a eles juros mais altos do que a viúva cobra para financiar as grandes empresas via BNDES.
Nossa, é bem mais do que se gastou com a Copa do Mundo. E sai pelo ralo todo ano. Por que será que ninguém está falando disso?
Na verdade, não temos raiva da Copa "só" porque ela é mais uma oportunidade para o mau uso do dinheiro público. No fundo, sabemos que oportunidades melhores aparecem e estão sendo aproveitadas todos os dias, por décadas, por séculos.
Também não temos raiva da Copa porque o dinheiro gasto com as obras pedidas pela Dona FIFA poderia resolver os nossos problemas com saúde, educação, transporte, segurança. Ninguém acredita nisso.
Temos raiva da Copa pelo mesmo motivo que leva o marido traído a queimar o sofá da sala: ela nos obrigou a saber de coisas que preferíamos ignorar. Jogou na nossa cara uma realidade que não queremos encarar, porque não estamos realmente dispostos a modificar.
Como assim? Então, os bons cidadãos não querem que tenhamos um país melhor? Com mais eficiência, menos corrupção? Em que as coisas funcionem como no primeiro mundo?
Olha, podem até querer. Mas desde que eles não precisem mover uma palha pra isso acontecer. Porque, no fim das contas, como se expressa toda essa revolta da sociedade contra a Copa?
Temos uma minoria que anda por aí quebrando vitrines de bancos, queimando lixeiras e hostilizando jornalistas. Com certeza eles também vão tentar praticar algumas depredações durante a Copa. O grande objetivo desse grupo deve ser que as lixeiras queimadas sejam substituídas por outras com padrão FIFA e que os bancos instalem vitrines à prova de balas. Coisa de primeiro mundo.
Felizmente, a grande maioria da população expressa sua revolta de forma mais pacata: xingando muito no twitter e compartilhando coisas no facebook. Os mais indignados pregam a solução final: nunca mais votar no partido “x”. Provavelmente vão votar no “y”, que no passado também tentou trazer a Copa pro Brasil, sem sucesso, ou no “z”, que outro dia mesmo era aliado do “x”, que também já esteve antes do lado do “z”, e se perder as eleições amanhã estará junto de qualquer um dos outros dois, com o mesmo sorriso de sempre.
Não é essa, porém, a mensagem da Copa. E por dizer algo diferente é que ela nos irrita. O que ela diz, o que não queremos escutar, é que mesmo com todas as nossas mazelas, podemos ser grandes. Mas para isso precisamos mudar. Assumir nossas responsabilidades, o que não fizemos até hoje. E, no caso dos problemas da Copa, não temos como dizer que “não sabíamos”. Fomos avisados, com insistência, até. Mas não fizemos nada. Nunca fazemos nada, além de botar a culpa nos outros e alimentar a ilusão de que tudo vai melhorar nas próximas eleições.
Pois as chances disso acontecer são as mesmas da Austrália vencer a Copa do Mundo. O “caçador de marajás” não levou o Brasil pro primeiro mundo, nem o Doutor da Sorbonne. O Messias Barbudo também não conseguiu, muito menos a Gerentona. Agora estamos esperando por quem, pelo Batman de toga? Pelo Capitão Nascimento?
Quem sabe conseguiremos aprender alguma coisa com a Copa. Se não, que aprendamos com as Olimpíadas. Ou podemos continuar deixando as raposas tomando conta do galinheiro, e trocar as raposas de quatro em quatro anos. E continuará nunca sendo culpa nossa. Afinal, temos mais o que fazer do que ajudar a tomar conta do nosso próprio país.
Finalizo com uma adaptação da “oração da serenidade”, desejando que:

Sejamos sábios o bastante para aceitar as coisas que não podemos modificar;

Corajosos o bastante para modificar aquelas que podemos;

E estúpidos o bastante para jamais sermos convencidos de que há alguma diferença entre as duas. 



sexta-feira, 30 de maio de 2014

Diga que não é verdade

Juro que quando me contaram que o principal economista de um dos candidatos à Presidência da República teria afirmado, em pleno período pré-eleitoral, que o salário mínimo estava muito alto eu pensei que era trollagem, “intriga da situação”. Pelo sim, pelo não, resolvi clicar no link, crente que ia me deparar com aquele tradicional cidadão:


Quem dera! Na boa, preferia mesmo que fosse piada. Afinal, melhor cair numa pegadinha de vez em quando do que viver eternamente num cenário de comédia pastelão. Porque, vejam vocês, na verdade o catedrático não disse exatamente que o salário mínimo estava muito alto (ufa!?), mas sim que O salário mínimo cresceu muito ao longo dos anos.


É, também não entendi! Precisaremos pesquisar um pouco, em duas etapas. A primeira: por mais que “muito” seja um termo um tanto subjetivo, será que o salário mínimo tem crescido mesmo nos últimos anos? E, se isto for verdade, o que será que o economista pretende concluir a partir dessa constatação?
A primeira etapa é fácil, afinal, como ensina na mesma entrevista o mestre-doutor-pica das galáxias no ramo, é questão de fazer conta. De fato, desde 1995, o salário mínimo tem experimentado ganhos reais. A evidência se sustenta com qualquer tipo de comparação: valor em dólar, poder de compra, salário mínimo x índice de inflação, etc..
Opa, mas isso é bom, não é? Ainda mais se tiver crescido “muito”, como ele disse. Vamos estabelecer um método para inferir se realmente cresceu “muito”? Na verdade, nem precisamos inventar nada, porque a nossa Constituição já determinou que o salário mínimo deve ser suficiente... ora, para o mínimo! Vamos ler a Constituição?

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais (...):

IV - salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender a suas necessidades vitais básicas e às de sua família com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social (...);

Agora ficou fácil. Se a Constituição define as necessidades básicas que precisam ser supridas pelo salário mínimo, o tal “mínimo existencial”, e o pica das galáxias está dizendo que o valor cresceu muito, concluímos que o salário mínimo com certeza ultrapassou o patamar ideal, de acordo com a Constituição. Está dando pra comprar tudo isso aí, e ainda sobra.
Estranho. Felizmente, não preciso sobreviver com um salário mínimo, mas R$ 724,00 me parece muito pouco dinheiro pra tanta coisa. Devo estar vivendo em outra realidade, mal acostumado, cercado de luxos. Afinal, não é possível que o Eminente esteja falando bobagem. Pior que tem pesquisador (deve ser comunista) insistindo que o valor ainda está baixo, que devia ser pelo menos quatro vezes maior! Como pode?
Bem, o importante é que, malgrado as intrigas da situação, o Iluminado afirma que já cresceu muito. Vamos, pois, para a segunda etapa: o que diabos ele pensa sobre isso?
Pela lógica, se consideramos que cresceu muito, é porque deveria ter crescido menos. E se tivesse crescido menos, estaria mais baixo. Logo, os que contaram a história um pouco diferente não estavam errados, apenas adiantaram a conclusão: o salário mínimo cresceu muito, logo o valor ficou alto. O próprio entrevistado dá uma dica da sua linha de pensamento, dando a entender que esse salário mínimo pode “engessar o mercado de trabalho”, “que o vínculo do salário mínimo com a previdência tem um custo”.
Imagino que, assim como eu, o nobre economista não precise sobreviver com um salário mínimo mensal. Bom pra nós. 
Porém, não como eu, ele parece ser incapaz de entender que a questão comporta, no mínimo, dois pontos de vista. Porque, convenhamos, para dizer que o salário mínimo está “alto”, ou o cidadão não sabe fazer conta, ou demonstra um completo alheamento, desprezo (pode substituir por qualquer outra palavra ou expressão que signifique “tô nem aí”), ao fato de que, além de pessoas (empresários, com os quais ele deve estar acostumado a conviver) que pagam um salário mínimo, também existem, em número muito maior, inclusive, pessoas que recebem um salário mínimo. Gente com a qual ele não deve estar acostumado a conviver. Mas que existem de verdade, não são apenas números numa planilha, variáveis incômodas numa equação que ficaria muito mais bonitinha aos olhos do gênio das finanças se ele pudesse cortar um tanto desse salário tão alto, mais outro tanto de direitos previdenciários, aumentar a jornada de trabalho... quem sabe, copiar as leis chinesas? Para estimular a produtividade?
Mal posso esperar o início da propaganda eleitoral na televisão. Espero que o candidato com sobrenome de grife escute as brilhantes ponderações do seu Coordenador Econômico e inicie a campanha prometendo reduzir o salário mínimo e os valores das aposentadorias. O povo brasileiro anda precisando dar umas boas risadas.



quinta-feira, 15 de maio de 2014

Os insondáveis desígnios da mente humana


Se há algo de realmente extraordinário nos seres humanos, é a capacidade de constante superação. Honestamente, acreditava que tão cedo ninguém seria capaz de superar no quesito vergonha alheia o texto de que tratamos no último artigo do blog, sobre as dificuldades dos liberais para consumarem coitos. Mas eis que, não mais de duas semanas depois, me deparo com um emocionante editorial de louvor ao agronegócio brasileiro.
Até aí nada demais, afinal, é bem provável que os donos do grupo de mídia que veicula essa opinião recebam polpudas verbas publicitárias dos magnatas do setor. O que realmente me causou espanto foi presenciar essa opinião reverberando nas redes sociais, como num surto de idolatria aos “guerreiros” dos campos deste Brasil.
Suponho, claro, que os idólatras não são os próprios fazendeiros disfarçados, mas cidadãos comuns, admirados com a potência empreendedora dos salvadores da pátria. Firmada essa premissa, não posso deixar de imaginar uma singela alegoria, protagonizada pelo simpático Arturzinho.
Nosso herói é um nerd que, por uma dessas trapaças do destino, acabou se alojando numa república cheia de gente descolada e com um elogiável histórico de sucesso na interação social. Doido para se integrar e também usufruir dos benefícios da popularidade, Arturzinho dá o maior apoio aos seus parceiros. Paga, claro, a sua parte nas despesas normais da república. E também banca, mais do que os outros, se necessário (e freqüentemente é necessário), as muitas festas que enchem a casa de mulheres desejáveis. Se for preciso (e é preciso com muita freqüência), empresta seu próprio quarto para os amigos maneiros dos seus colegas de república, ajudando-os assim a usufruir comodamente dos espólios colhidos na batalha. Além de tudo, é o que mais trabalha na organização da festa e na arrumação da casa. Enfim, é o homem que comanda os bastidores.
Percebe-se que o Arturzinho é um cara legal, todo mundo gosta dele. E ele se sente muito bem por ser tão querido. Só tem um problema: no final das contas, o Arturzinho, que tanto rala, acaba não pegando ninguém! E não satisfeito em somente viver nessa triste condição, ainda sai TIRANDO ONDA por morar numa república tão bacana, que vive cheia de mulher, e por ter um monte de amigos que estão traçando as mais gostosas da faculdade.
Claro que essa digressão foi só pra descontrair, e qualquer semelhança com os fãs dos agromagnatas não chega nem a ser mera coincidência. Agora vamos voltar ao tema.
Assim como o Arturzinho banca, em grande parte, a diversão dos seus amigos, o cidadão que está batendo palma para mais um navio carregado de soja pra lá, uma mala de dinheiro pra cá, também banca o agronegócio. Afinal, o setor é largamente financiado por dinheiro público e isenções tributárias. Quem não cabulou as aulas de História no segundo grau deve se lembrar da época em que o governo comprava café para evitar que o preço caísse, mantendo assim a prosperidade dos barões. Tanto tempo se passou, mas a justificativa da época não difere muito da hoje utilizada para as crescentes desonerações, benefícios e facilidades: eles merecem todo apoio, afinal, representam o "Brasil que dá certo”.
Creio não ter um grande tino para negócios, mas quem sabe, se me dessem terra de graça, dinheiro pra plantar quase de graça, isenção de uma série de tributos, alíquotas ridículas nos remanescentes (como é o caso do ITR) e o governo ainda comprasse minha produção ou perdoasse minhas dívidas de vez em quando, talvez eu tivesse alguma chance de prosperar também. Pena que ainda não era sequer nascido quando a coroa portuguesa distribuiu nossas terras entre seus amigos nobres, e nem prestei serviços relevantes ao Império (tipo matar índios) para ser agraciado com latifúndios.
“Ah, mas hoje é muito diferente. Na época, tinha até trabalho escravo. Hoje, a agricultura gera emprego!”
De fato, há diferenças. Naqueles tempos os agricultores e pecuaristas utilizavam o trabalho escravo legalmente. Podia até ser imoral, mas era legal. Hoje, uns poucos desviados do caminho da virtude (claro que isso é exceção) continuam usando, pena que de forma ilegal. Mas a solução do problema está encaminhada, eles estão loucos para mudar o conceito legal de escravidão. Aí sim, poderão se tornar iguaizinhos aos seus ancestrais. E merecerão mais ainda os vivas da plebe.

Diante de situações tão estapafúrdias, só me resta encerrar deixando, do alto de minha insuportável pretensão, dois conselhos:

- Para o Arturzinho: invista seu tempo e dinheiro em atividades que possam de fato ajudá-lo a gozar das mesmas diversões em que os seus colegas se esbaldam. O dinheiro, por exemplo, seria mais bem investido remunerando os serviços de boas e honestas profissionais liberais.

- Para os fãs dos grandes empreendedores rurais: se você quer ser como eles, mas não tem terra, não tem grana, nem é amigo do Rei, não se desespere. É só clicar aqui.


terça-feira, 29 de abril de 2014

Ó, vida! Ó, azar!



AVISO: Todos os links apontam para conteúdo potencialmente ofensivo. A menos que sinta uma necessidade imperiosa de checar as fontes, sugiro que evite o contato.

O grande problema dos liberais é que eles não “pegam” mulher. Não, não sou eu quem está dizendo. Esta foi a tese defendida num artigo recente de certo filósofo que, dizem por aí, é um dos gurus da “direita” brasileira.
O texto viralizou rapidamente na rede, mas cada compartilhamento era acompanhado de duras e injustas críticas, vociferadas por mentes menores e invejosas.
Para alcançarmos o pensamento superior do filósofo, urge lembrar que ser tosco é uma arte. Não podemos afirmar com certeza que foi proposital, que o autor pretende se tornar o Ed Wood da crônica. Mas não podemos tampouco desprezar seu talento. O escriba atingiu um grau de infelicidade e bizarria tão único que suas linhas escaparam dos guetos da intelligentzia liberal e foram catapultadas diretamente para as mais seletas antologias.
O mais curioso é que as críticas se focaram, basicamente, na importância conferida pelo autor ao fato dos liberais serem "lisos". Na visão dos detratores, as dificuldades de interação amistosa com o sexo oposto não seriam assim tão prejudiciais como alega o filósofo. E o que há de curioso nisso? Ora, que nem se cogitou argumentar contra a premissa base: os caras realmente não pegam ninguém.
Bem, se o fato não é contestado, é incontroverso. O autor, porém, se debruçou mais a louvar as qualidades da esquerda festiva do que em apontar os motivos que poderiam estar empacando a vida sexual da direita... qual seria o contraponto de esquerda festiva? Direita depressiva? Liberais sorumbáticos? Ou a popular direita raivosa?
Confesso que, superada a vergonha de não ter coisa melhor em que pensar, comecei a matutar: porque será que esse pessoal tem tanta dificuldade para cumprir um rito tão tradicional da nossa espécie? Na falta de pesquisas científicas confiáveis sobre o tema, resolvi consultar um especialista, cujo nome será mantido em sigilo.
Apesar de faltar ao meu especialista arcabouço filosófico, ele traz ao debate elementos empíricos, que, como vimos, são um tanto inacessíveis para o autor e seus amigos. Em resumo, ele disse que as mulheres gostam de:
  • Ser ouvidas – e não adianta só fingir que está ouvindo, tem que ouvir e se importar;
  • Ser valorizadas e respeitadas;
  • Se divertir.
Claro que estamos trabalhando no atacado, com generalizações, e focando apenas no básico. Mas confiem: quem sabe ouvir, demonstra respeito e interesse, e ainda consegue ser divertido, este só terá dificuldades reprodutivas se for especialmente desfavorecido pela natureza.
Conclui-se, portanto, que o homem, para alcançar sucesso em suas tentativas de atrair fêmeas para a conjunção carnal, precisa demonstrar, no mínimo, empatia, sensibilidade, educação, e bom humor.
Infelizmente, as restrições orçamentárias do blog não permitem que façamos uma acurada pesquisa com os “jovens liberais” para verificar se eles estariam carentes dessas habilidades (porque carentes de outras coisas já sabemos que eles estão). Mas podemos improvisar: no próprio texto do autor, e em outros publicados por seus pares, é possível encontrar indícios do grau de maestria dos “pensadores” no relacionamento com o sexo oposto.
Iniciemos com o filósofo, dando aula nos quesitos "respeito" e "valorização". O intelectual qualifica as mulheres como cabeças de vento, que seriam facilmente seduzidas pela poesia iconoclasta da tal esquerda festiva. Elas não estariam preparadas para o contato com os liberallis superiors, que precisariam aprender a operar num nível inferior de consciência para se relacionarem de igual para igual com os objetos do experimento.
Antevejo problemas de ordem prática para seguirem esse conselho: não imagino como eles possam alcançar um nível inferior àquele em que já estão. Mas vamos adiante. 
Nosso segundo exemplo, assim como o filósofo, também é adepto do quanto pior, melhor, e recentemente ganhou indigitada exposição por conta de uma “carta aberta” para uma atriz global, que acabara de ser vítima de assalto a mão armada e cárcere privado em sua própria residência.
O articulista inicia sua epístola com elogios à beleza da atriz (nada mal por enquanto), e em seguida tenta impressioná-la com sua pretensa superioridade intelectual, oferecendo inclusive um exemplar autografado do seu livro sobre culinária. As coisas já não parecem caminhar bem para o lado do novo ícone do liberalismo, quando ele tira uma carta inesperada da manga: uma mensagem comovente para a atriz, ainda abalada pelo traumático episódio. Eu os pouparei de ler: em resumo, o que ele tinha a dizer para a bela e ainda chorosa vítima era: “bem feito!”.
(minuto de silêncio)
Modestamente, acho que eu pensaria em maneiras melhores de consolar uma mulher que passou a noite com uma arma apontada pra cabeça.
Mas não vamos desistir deles ainda. O que não falta aos “jovens liberais” é guru, e vejam que achado, um deles escreveu um texto chamado “como agradar as mulheres”. Lendo os ensinamentos do Guru-Rei, podemos entender porque seu discípulo demonstra a sensibilidade de um viciado em lidocaína: o Rei decreta que “quem curte homem sensível é outro homem”.
Empatia e sensibilidade, realmente, não fazem parte do repertório desses senhores. Mas e quanto à educação e bom humor?
Para que não nos acusem de perseguição, busquemos um novo modelo para o quesito educação. Este se notabilizou por chamar o Presidente da República de anta. É o tipo de coisa de que eles acham graça, imagino.
E não acabou. A piada maior vem de outro assim dito filósofo, que lançou um tomo destinado a ensinar as pessoas a não serem idiotas. Esse tipo de humor, até entendo: ele chama todo mundo de idiota, e seus discípulos ainda formam fila para comprar o livro. Se eu trabalhasse numa livraria, acho que não resistiria em abordar os compradores: “Por favor, depois que ler, me avisa se funcionou?”

Creio que a pesquisa foi suficiente. Já podemos visualizar um cenário idílico: os cinco iluminados, num terraço de New York (porque eles também odeiam o Brasil), rindo garbosamente enquanto escolhem os próximos em quem irão pisar para criar polêmicas e inventam novos termos chulos, com eventuais pausas para se gabarem de sua grande potência mental. Tudo temperado pela saudável fumaça de charutos da República Dominicana (Havana, jamais!).

É forçoso concluir que, inobstante sua renomada sapiência, o filósofo deve ter errado o alvo desta vez. Que mulher não se encantaria por pessoas tão simpáticas e agradáveis?




sexta-feira, 25 de abril de 2014

Finalmente, sexta-feira!


Se há uma coisa mais previsível do que um vice-campeonato do Vasco, é o fato de que ninguém poderá acessar as redes sociais numa sexta-feira sem se deparar com uma enxurrada de posts festivos. Isso quando a contagem regressiva não começa já na segunda. Mas já paramos pra pensar sobre quais seriam os motivos de tamanha alegria?
“PORRA, mas que pergunta idiota! Depois da sexta vem o sábado e o domingo, sabia? Sério que o artigo é sobre ISSO?”
Calma, que tudo pode se tornar mais complicado do que parece. Beleza, o que se comemora nas sextas-feiras é a iminência dos finais de semana. Dois dias em que a maioria das pessoas não cumpre expediente, não tem compromissos, enfim, podem fazer o que tiverem vontade. Assim, os vivas à sexta-feira marcam a passagem pela fronteira entre a aborrecida rotina dos dias úteis e a liberdade de um sábado de sol.
Mas, então, o motivo da festa é que temos a possibilidade de dois dias felizes após cada cinco sofríveis?
“Nãoooo, peraí, não são dois a cada cinco... e os feriados, as férias? Também adoramos feriado! Principalmente, se cair numa quinta e der pra enforcar a sexta!”
(Pausa para os cálculos – matemática não costuma ser o forte de escritores. 365 dias – feriados – férias – finais de semana + finais de semana durante as férias que precisam ser compensados = ????)
Tudo bem, contando férias de 30 dias, temos pouco mais de 70% de dias úteis no ano, logo, menos de 30% de finais de semana, feriados e afins. Quer dizer que esse rebuliço todo é pela expectativa de usufruir, quem sabe, de três dias felizes a cada dez? Sinto informar, mas... parece que você está fazendo isso errado!!
Melhor do que ansiar diuturnamente pela chegada de janelas de escape da nossa vida cotidiana seria construir uma vida da qual não quiséssemos escapar tão desesperadamente. Conferir significado a 100% dos nossos dias, e não apenas a 30% deles.
Falar é bem mais fácil do que fazer, não é? Olha a realidade: quase quatro horas só indo e vindo do trabalho, mais oito de expediente. Mais tempo pra dormir, almoçar, jantar, tomar banho... e no pouquinho que sobra, ainda preciso ficar “conferindo significado”?
Bom, quem está numa situação dessas precisa refletir se realmente deseja ficar para sempre preso nesse modelo de “vida”. Se a resposta for sim, nada há a se fazer. Agora, se a resposta seguir um padrão mínimo de lógica e for não, veremos que definir os alvos que precisamos derrubar para escapar dessa idílica existência não é nada difícil.
Afinal, no cenário que exemplificamos, nada menos que 12 horas são consumidas apenas com deslocamento e trabalho. Logo, saltam aos olhos as alternativas. A mais lógica é reduzir o tempo de deslocamento, de trabalho, ou ambos, para viver por mais tempo do que o dedicado a sobreviver. Outra opção seria encontrar propósito no próprio trabalho e nas demais atividades cotidianas, o que é bem diferente de “gostar” de trabalhar. E, caso isso se revele impraticável, modificar as atividades a que nos dedicamos durante os infames cinco dias úteis.
Afirmo, sem qualquer receio, que existem inúmeros caminhos para que reinventemos nossas vidas, e a maioria deles é acessível a qualquer pessoa. Alguns envolvem, claro, um período de privações e sacrifícios antes de nos conduzir a um objetivo. Mas mesmo o que para uns parece sacrifício pode se tornar prazeroso, se as ações são direcionadas para uma meta. Aqueles que escolheram como rota de escape de empregos estafantes e insatisfatórios o estudo, e celebravam a sexta-feira não pela happy-hour, mas pela iminência de 48 horas de paz com seus livros e aulas, com certeza entende bem isso.
O curioso, portanto, é que embora haja muitas pessoas insatisfeitas com a própria vida, e a todas elas esteja disponível a possibilidade de mudança, a maioria não se move. Seguem disputando a corrida dos ratos. No percurso, amaldiçoam alguns, invejam outros, e parecem estar esperando que o mundo se adeque aos seus desejos e necessidades. Não mudam seu comportamento e, claro, jamais esperam conseguir “mudar o mundo”. Esses bravos atletas podem ser muitas coisas, mas jamais serão sonhadores.
Não, eles não sonham. Eis que encontramos as correntes da prisão. O sortilégio pode, de fato, ser quebrado por qualquer um, mas mediante a conjugação de pelo menos dois fatores: visão e coragem. Correndo de um lado pro outro o tempo inteiro, não se pode ver além da linha dos olhos. Encerrada continuamente em escritórios e túneis, a mente se acomoda e se amedronta com a luz do sol.
E, no acender das luzes, encontrar a saída é simples. O primeiro passo é o mesmo que deve ser seguido pelos dependentes químicos: é preciso reconhecer que há um problema. E visualizar uma vida diferente, melhor, se formos fortes o suficiente para lutar contra os vícios e limites que nós próprios nos impusemos. Em seguida, definir objetivos e buscar os meios para alcançá-los. Encarar os sacrifícios necessários, que serão menores do que aqueles que sofrem os que continuam eternamente presos. E, principalmente, ter coragem para mudar.
Não exige prática, tampouco habilidade. Basta abrir os olhos e caminhar sobre as pedras e brasas, rumo ao desconhecido. Boa viagem, e espero encontrar cada vez mais gente por lá.



quinta-feira, 17 de abril de 2014

Passageiros, aos seus lugares


Vamos imaginar que o Brasil decida “zerar” o Congresso e instalar uma novíssima Assembleia Nacional, a exemplo do que ocorreu na Revolução Francesa (sem as guilhotinas, por favor). O objetivo da Assembleia é simples: encontrar caminhos para resolver os inúmeros problemas do nosso país.
Cientes dos perigos da polarização, e querendo evitar cabeças cortadas atrapalhando a passagem, os organizadores da Assembleia optam por não dividir o plenário em lados opostos, mas dispô-lo em círculo. Posicionam junto ao centro, abertos a partir do palco destinado para os discursos, estofados totalmente brancos, que vão ganhando coloração à medida que se aproximam das extremidades, que ficam tomadas por assentos vermelhos.
Para definir os lugares destinados a cada representante, adotam a seguinte regra: aqueles que são contra reformas profundas, contra decisões que impactem de modo significativo a estrutura social e política preexistente, devem ocupar os assentos brancos. Para os que defendem a necessidade de mudanças radicais, ficam reservados os assentos vermelhos. Os demais, naturalmente, vão sendo distribuídos pelos demais assentos de matizes intermediários conforme o seu grau de conservadorismo ou reformismo.
Formado o cenário, vamos a um trivial exercício de lógica, temperado por um breve exemplo. Sabemos que atingir o crânio de um ser humano saudável com uma bolinha de papel não provoca ferimentos. Aliás, devemos agradecer a um de nossos mais eminentes políticos por esse conhecimento, ele que ofereceu seu próprio corpo à ciência, submetendo-se a uma extensa bateria de exames que dirimiram qualquer dúvida que pudesse haver sobre a inofensividade das bolinhas de papel.
Ora, uma vez que sabemos disso, é uma grande estupidez, se pretendemos causar ferimentos a uma pessoa, alvejá-la com bolinhas de papel. Óbvio que devemos usar outro tipo de projétil, mais pesado e contundente.
Do mesmo modo, se entendemos que o Brasil tem uma série de problemas, beiraria a insanidade se, caso convocados para semelhante Assembleia, optássemos pelos assentos brancos. Como poderemos almejar mudanças, se continuarmos fazendo as mesmas coisas?
Vamos estender um pouco a alegoria e pensar nos nossos políticos atuais. Há certo partido que ocupa a Chefia do Poder Executivo e grande parte das cadeiras do Congresso há mais de uma década, e tem como símbolo uma estrela vermelha. Dizem por aí que eles são de esquerda.
Mas, vejamos: em todo esse tempo de governo, houve mudanças relevantes no Brasil? Claro que podemos encontrar algumas melhorias, avanços, mas só até certo ponto. Geralmente até o limite em que começam a ser ameaçados "valores" tradicionais da nossa sociedade. Não por acaso, nos últimos vinte anos, a pauta de debates parece a mesma: ainda falamos de reforma política, direitos civis, reforma tributária, reforma agrária, saúde, educação, desigualdade social, segurança pública. Enquanto isso, a maioria dos “nossos” representantes vive de braços dados com latifundiários, fundamentalistas religiosos, empreiteiros, usineiros, banqueiros e outras “vítimas do sistema”. Em resumo, com o pessoal que tem todos os motivos do mundo para desejar uma Assembleia pintada de branco, porque para eles tudo continua muito bem, obrigado.
Agora, vamos esquecer aqueles velhos conceitos que nasceram lá na França e pensar: será que o pessoal da estrelinha rubra no peito está mesmo ocupando os assentos vermelhos? E todos os demais partidos, quais deles estão realmente lutando por um país mais justo e solidário, como prega a nossa Constituição, e quais estão apenas brigando um contra o outro, esperando sua vez de sentar na cadeira mais disputada da sala?
A verdade é que, antes de pensar se nós “somos” de algum lado, e procurar quem diz que está do mesmo lado, precisamos saber o que queremos. Construir nossos próprios valores e ideias. Depois, descobrir quem são os cidadãos e homens públicos que não só afirmam pensar como nós, mas também tem atuado para transformar as ideias em realidade. Aqueles que se sentariam perto de nós na Assembleia. Aqueles que nos ajudariam a pensar, a litigar, a conciliar, e a construir, quem sabe, um amanhã diferente. 
O caminho da mudança é tortuoso, e geralmente percorrido a passos curtos. Mas pode ser vencido se, para começar, visualizarmos com clareza a trilha que queremos percorrer. Uma trilha que tem muito mais de dois caminhos.