terça-feira, 2 de setembro de 2014

Sexo, mentiras e videotape


Antes de iniciar o texto em si, creio que, excepcionalmente, caiba uma breve explicação sobre o título.  Devido ao inusitado horário do segundo debate entre os presidenciáveis, não pude assisti-lo ao vivo, e tive que recorrer ao youtube. Por isso o videotape. O resto não tem nada a ver. Não quis dizer que os candidatos estão contando mentiras, muito menos que eles pretendem £#Ѐ® com o povo brasileiro.
Isto posto, vamos à resenha. Acredito que, assim como eu, muitos interessados na campanha acabaram perdendo o debate por causa do horário. Então, simplesmente selecionei os melhores momentos. Os links para os vídeos estão em destaque na primeira linha dedicada ao respectivo bloco.

Bloco 1, 5:30: Marina diz que “o pensamento da ideia cartesiana de governo só consegue olhar para uma alternativa”.  O povo vibra.
Bloco 1, 10:45: Luciana Genro ataca a política de PT e PSDB para os aposentados. Aécio responde que, lamentavelmente, ele não é Fernando Henrique Cardoso. Um bando de gurus de auto-ajuda e psicoterapeutas corre para oferecer seus cartões ao tucano.
Bloco 1, 15:00: Aécio pergunta a Eduardo Jorge sobre política econômica. O mito detona o “G3” e simplifica: o problema é a “Bolsa SELIC”.
Bloco 1, 18:30: Marina pergunta ao Pastor Everaldo sobre saneamento básico. Ele diz que apoia a redução da idade penal.
Bloco 1, 23:00: O Pastor pergunta a Levy Fidélix sobre segurança pública. Ele responde que a Petrobrás é imprivatizável.
Bloco 1, 29:30: Luciana Genro fica com inveja do “G3” de Eduardo Jorge e resolve lançar um bordão também: “três irmãos siameses”.

Bloco 2, 2:00: Perguntas dos jornalistas. Fernando Rodrigues questiona Marina sobre o termo de confidencialidade das suas palestras. Ela responde falando de desenvolvimento sustentável e renovação da política. No comentário, Dilma fala que seu governo, em todos os tempos, é o que tem as menores taxas de juros reais do Brasil. No meio disso, ainda bateram um papo sobre rendas e transparências. Só mulher mesmo para ficar falando de roupas no meio de um debate político.
Bloco 2, 11:30: Kenedy Alencar questiona Aécio sobre os casos de corrupção no PSDB. O tucano responde falando de meritocracia e promete que num hipotético governo dele não haveria esse monte de denúncias. No fundo do auditório, o Chaves sopra no ouvido do Godines: “Será que ele vai pedir para guardarem segredo?”.
Bloco 2, 26:00: Fernando Canzian chama Luciana Genro de atrasada e populista. Ela responde que para defender os interesses do capital já tem o PT, o PSDB e a Marina. Aécio comenta falando de novo em meritocracia. Deve ser uma palavra mágica, como o cartesiano da Marina.
Bloco 2, 28:00: Kenedy de novo, agora perguntando a Levy Fidélix se o PRTB é legenda de aluguel. O bigodudo responde que vendido é ele. Chamado para comentar, Eduardo Jorge fala que não tem nada a ver com isso e que vai usar o minuto dele para falar das propostas do Partido Verde. Na réplica, Levy comemora por ter ido à inauguração do monotrilho.

Bloco 3, 5:30: Luciana Genro acusa Marina de manter economistas tucanos em cativeiro. A candidata-sensação diz que vai manter as conquistas econômicas de FHC, as conquistas sociais de Lula, e o programa espacial de JFK. Não, peraí, essa última parte acho que não teve. Enfim, o importante é que Luciana rebateu cobrando Marina por ter mudado de opinião sobre o casamento gay. Marina emula Eduardo Jorge e diz que não teve nada a ver com isso, que a culpa foi do estagiário.
Bloco 3, 13:00: Levy pergunta a Aécio como acabar com os engarrafamentos nas grandes metrópoles. Ah, e no meio da pergunta chama um jornalista de língua de trapo. Aécio manda de bate pronto que os engarrafamentos são culpa do PT. Um barbudo começa a gritar da plateia que a culpa é dele mesmo, porque agora todo mundo tem carro. A segurança retira o barbudo.
Bloco 3, 18:30: Aécio pergunta a Dilma sobre segurança pública. Ela diz que o mineiro tem memória fraca e cobra uma nota preta que teria emprestado pra ele. Constrangedor, eles podiam ter resolvido essa parada longe das câmeras.
Bloco 3, 26:00: Pastor Everaldo pergunta a Levy Fidélix.
Sim, isso já seria o bastante, mas tem mais. A pergunta é sobre corrupção. O ícone do PRTB resolve dar uma moral pro companheiro de bancada e responde que pra acabar com a corrupção, “só Deus”.

Bloco 4: Esqueçam. Depois de Levy Spacely Fidélix mensageiro da palavra divina, não precisam assistir mais nada.

Tenho o hábito de reler meus textos antes de publicar. Relendo este, percebi que tudo pareceu meio sem sentido. Fiquei até com vontade de reescrever. Mas o que posso fazer, se foi exatamente assim que as coisas aconteceram?


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Sobre ontem à noite


O primeiro debate entre os presidenciáveis pode não ter alterado muito a percepção do eleitor no tocante à qualidade dos nossos políticos. Mas mostrou, pelo menos, uma elogiável diversidade. A se julgar pelas imagens que os candidatos tentaram transmitir, há opções de voto para todos os gostos.
Temos um mauricinho de família tradicional, posando de liberal clássico, falando em segurança e previsibilidade. Falha da produção (aliás, quanto será que ganham esses assessores de campanha?), pois nada mais seguro e previsível do que continuar com quem já está lá. Conclusão lógica que foi reforçada pelas falas da candidata à reeleição, que insistiu em mirar o passado para pregar a continuidade dos programas sociais e vender o seu modelo de Estado desenvolvimentista e proativo. Além, claro, de comparar das gestões do seu partido com as do rival, embate que a essa altura já ganhou mais reprises que os filmes oitentistas da Sessão da Tarde. 
Quando tudo parecia muito chato na primeira fila, eis que surge a esquerda hippie roubando a cena. O porta-voz dos verdes abriu o debate clamando pela legalização da maconha e encerrou citando Gandhi, Tolstoi e John Lennon. Ao longo do caminho atirou para todos os lados, chamando à luz temas que os “grandes” candidatos não querem discutir, como aborto, reforma política e auditoria da dívida pública.
Para quem o achou moderado, tivemos também a candidata que incorporou (de forma equivocada, a meu ver) a esquerda raivosa. Remoendo suas antigas picuinhas com o PT, apontando o candidato pastor como responsável pela violência homofóbica, e mesmo nos seus melhores momentos, quando apontava para o alvo perfeito (condenando a eterna subordinação dos nossos governos aos interesses do capital), sempre pareceu mais disposta a destruir do que a construir. Não à toa, terminou o debate levando um “pito” do candidato do PV, após entregar de bandeja para o oponente o bordão paz e amor. Se Luciana parecia pronta para sacar uma espingarda, tudo que Eduardo Jorge queria era deixar o palco cantando “Imagine”. Quem diria, conseguiu.
Claro, o quadro não estaria completo sem uma dupla de ultraconservadores ignorando tudo que a sociedade evoluiu desde o século XIX (com boa vontade, quiçá eles estejam mais para o século XV). E que modo melhor de fechar um debate presidencial do que declarando ter orgulho de ser retrógrado? Mas que bom, afinal, precisamos respeitar as diferenças. Quem sente “saudades” dos valores da Idade Média também merece ter um candidato para votar. E acabou ganhando dois!
Então, temos todas essas opções. E, claro, também temos Marina, renascida das cinzas de um avião despedaçado na cidade de Santos. E quem seria Marina?
Ela é a pregadora da “nova política” que promete acabar com a polarização PT-PSDB convocando para junto dela o PT e o PSDB. É a evangélica fervorosa que vai garantir o direito de sermos ateus. É a ex-ministra controversa, taxada de intransigente, que chegou aos estúdios em transe zen, como se saída de uma sessão de doze horas com o Mestre Yoda. É a candidata que critica Dilma, mas reverencia Lula. Que trata Aécio com a indulgência que dedicamos a uma criança levada, mas afaga FHC. É a ambientalista que vai impulsionar o agronegócio. É a militante histórica de esquerda que agora anda de braços dados com grandes capitalistas. É a “segunda via” da direita que já começa a ser chamada de “risco” e “aventura” pelos opositores que brotam de todos os lados. Como são tolos, não percebem que às vezes uma aventura é tudo que alguém pode querer. Ela é o tudo e o nada (obrigado por essa, Paulo e Raul!).
Pois é, não sei quem é Marina Silva, nem o que ela realmente pretende fazer. Mas creio que ela saiba muito bem para onde está indo. E, pelo que vimos na noite de ontem, parece ser aquela que tem o melhor plano para chegar lá. Ou teria apenas 12% de um plano? De um modo ou de outro, não vai demorar muito para descobrirmos.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Mentes que brilham (Parte 1)


Logo que se iniciou a campanha eleitoral, tive uma ideia luminosa: ler as propostas dos candidatos a Presidente, resumi-las e compará-las. Desisti do projeto quando vi que havia textos de quase 80 páginas, a maioria das quais não dizia nada.
Claro que a ideia não era tão ruim, a falha estava na execução. Embora a sabedoria popular indique que remédios amargos devem ser tomados de uma vez só, concluí que melhor seria abordar um tema por vez. E o primeiro foi escolhido por conta da boa repercussão do texto “Com mérito”: cotas étnicas.
Embora o assunto desperte polêmica, a pesquisa de opinião mais recente que encontrei já é antiga, de janeiro de 2013. Segundo o IBOPE, naquele momento 64% dos brasileiros aprovavam a existência das cotas para negros nas universidades públicas.
Assim, tendo em mente o resultado dessa pesquisa, vamos às propostas dos presidenciáveis. Citá-los-ei exatamente na ordem em que aparecem no sítio do TSE, onde as propostas de governo estão disponíveis para leitura.
O candidato que pretende liderar a oposição preparou um documento de 76 páginas. De fato, ele tem muitas ideias. Ainda bem que existe o comando “localizar”. Fui direto para a página 16, onde está o que nos interessa:
Defesa e manutenção das ações afirmativas de inclusão social, 
inclusive cotas, em razão de raça.
A candidata à reeleição escreveu menos no geral e mais sobre cotas. Tanto divulgando o que afirma já ter feito como o que ainda pretende fazer. Vamos focar nas propostas para o futuro, que estão na página 21:
Temos o desafio de tornar realidade a Lei de Cotas no serviço público federal, 
sancionada em junho de 2014, garantindo-lhe a mesma efetividade já 
alcançada pela lei de cotas nas universidades públicas.
Segue o jogo. Assumiremos que a candidata de última hora manterá a proposta da chapa original. Ei-la:
Reforçar políticas de igualdade racial, inclusive a manutenção das cotas, como parte de um processo de restauração do equilíbrio aos desequilíbrios históricos contra as minorias.
Na mesma linha, o pessoal do “contra burguês, vote 16”:
O PSTU defende uma política de combate ao racismo e de compensação ao povo negro, como a ampliação do sistema de cotas nas universidades e serviços públicos.
E, para finalizar, o enigmático posicionamento do candidato do Partido da Causa Operária, o popularíssimo PCO:
“Não será através de políticas e ações afirmativas que a população negra acabará com a opressão racial, mas somente por meio da luta política capaz de destruir o estado burguês no processo revolucionário pela construção do socialismo.”
Não localizei citação às cotas ou ações afirmativas nas propostas divulgadas pelos outros candidatos. Talvez eles tenham tratado do assunto indiretamente, ou sem usar as palavras-chave que selecionei. Nesse caso, duvido que tenham adotado posições claras o bastante para que pudéssemos analisar. Logo, ficam fora deste artigo.
Falando em clareza, vamos tentar decifrar o intrincado pensamento do PCO. Políticas em benefício dos menos favorecidos seriam métodos de controle das massas. O oprimido, ao ser contemplado com alguma benesse, se sente menos oprimido. Sua insatisfação e revolta diminuem, ante a possibilidade de inclusão social. Se o sistema está trabalhando em favor dele, por que derrubá-lo? O ideal, portanto, é negar as ações afirmativas, perpetuar a exclusão, até que não reste alternativa aos excluídos senão o levante revolucionário. Tomar o Estado. Mas... para quê? Para adotar políticas de combate à opressão e à desigualdade, imagino. E não seriam justamente essas as motivações das ações afirmativas? Parece que atingimos uma referência circular. Confuso, não é? Talvez defender teses que demandam um raciocínio tão labiríntico seja um dos motivos pelos quais eles não conseguem muitos votos.
As outras propostas parecem semelhantes, todas favoráveis às cotas. Mas se prestarmos atenção às escolhas das palavras, perceberemos sutis diferenças.
O único partido a afirmar categoricamente que irá ampliar o sistema é o PSTU. Curiosamente, sua justificativa é a mesma adotada pelo PSB para manter as cotas, compensação histórica. Tenho dificuldade para aceitar essa “compensação”. OK, eu, o Estado, chancelei o tráfico humano, a escravidão e a tortura dos seus ascendentes. Se agora deixarmos vocês furarem umas filas de vez em quando, podem nos perdoar?
Justificativas a parte, vamos deixar o PSTU para trás (onde eles ficam mesmo ao fim das eleições) e pensar em duas palavras utilizadas tanto pelo PSB, como pelo PSDB: manutenção e inclusive.
Manter significa deixar como está. Logo, esses partidos, embora na oposição, avaliam que neste particular os caminhos adotados pelo governo são satisfatórios e devem ser mantidos, inclusive em relação às cotas raciais. Para mim soou como “Tudo bem, vamos deixar assim, deixamos até essas cotas em razão de (?) raça.” Ah, se fosse eu o redator, pelo menos substituiria “raça” por etnia.
Vamos relevar essa pequena imprecisão semântica, pois temos palavrinhas reveladoras também na proposta da candidata oficial. Se os oposicionistas pisam em ovos para concordar com qualquer coisa que o atual governo tenha feito, quem está no governo precisa tomar cuidado a cada proposta que apresenta. Afinal, se está falando que vai fazer agora, por que não fez antes?
Assim, considerando as particularidades inerentes à construção de cada discurso, e levando em conta apenas o que se escreveu sobre as cotas, parece que o PT contratou redatores melhores. A Presidente não apresenta uma simples proposta, se declara diante de um desafio, que é de reproduzir a efetividade, ou seja, o sucesso, que afirma já ter alcançado em outra iniciativa semelhante. Já fizemos nas universidades, e agora faremos no serviço público, mas não pensem que será fácil. Se fosse fácil, já teríamos feito. Será um desafio.
No fim das contas, seja por realmente acreditarem na proposta, ou por não quererem desagradar mais de 60% do eleitorado, tudo indica que, qualquer que seja o candidato vencedor, não teremos o fim das cotas étnicas. E nem considero isso um problema, afinal, o mínimo esperado numa democracia é que as decisões dos governantes estejam de acordo com os anseios da população.
Qual é então a face riscada da moeda? O fato de nenhum candidato parecer disposto a fomentar um debate sobre o tema, o que poderia levar ao seu aperfeiçoamento – por exemplo, com cotas sociais, cotas mistas, ou ações afirmativas diferentes de simples cotas. Se o povo está aceitando bem pão seco, para que se dar ao trabalho de fabricar manteiga?


quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Antes de partir



É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã...”

Porque um dia, qualquer dia, não haverá mesmo. Ingenuamente, fingimos acreditar que morremos um pouco a cada dia. Acompanhamos nossas taxas de colesterol, analisamos projeções de expectativa de vida, fazemos planos para o futuro. Tentamos esquecer que a morte nem sempre é paciente. Não satisfeita em ser inevitável, ela também se dá o direito de ser inesperada. Pode agir lentamente, degradando nosso corpo com a passagem do tempo e o acúmulo de doenças, ou tão rápido como a explosão de uma bomba, breve e seca como o estalo de um pescoço se quebrando.
O ditador russo Stalin dizia que a morte de uma pessoa é uma tragédia; a de muitas, estatística. Por mais que queiramos negar a cínica verdade contida nessa maléfica afirmação, ela se prova com deprimente frequência. Assistimos em tempo real a guerras que mais parecem jogos de videogame, com a diferença, claro, de que, em algum lugar do mundo, as pessoas estão morrendo de verdade.
Segunda-feira, 11 de agosto de 2014. Quarta-feira, 13 de agosto de 2014. Dois dias não para esquecer, mas para nos lembrar de que, mesmo anestesiados pela violência cotidiana, uma singela morte ainda pode nos abalar.
Um avião cai em Santos. Sete mortos. Cada um tem sua própria história. Todos deixam familiares, pessoas amadas, e sonhos interrompidos. Mas hoje, e para sempre, este não será o acidente em que morreram sete pessoas. Foi e será a tragédia que vitimou o candidato à presidência Eduardo Campos.
Imagino, leitor, que esteja pensando que escreverei sobre Eduardo Campos. Mas não irei fazê-lo, e por um motivo simples: o que mais há agora é gente escrevendo e falando sobre Eduardo Campos. Biografias, depoimentos, crônicas emocionadas, projeções sobre as possíveis consequências da fatalidade na corrida presidencial (será hora disso, aliás?). Enfim, não falarei de Eduardo, até por duvidar que possa escrever algo diferente, ou melhor, do que muitas coisas que já estão postas, por escribas bem mais talentosos do que eu. Ao invés, tratarei de um tema em que não poderão me superar: eu mesmo, e as reflexões que me vieram ao longo do dia.
Pensei, sim, sobre o que pode acontecer nas eleições. É inegável que o acaso pode mudar, mais uma vez, os destinos do nosso país e, por tabela, de nossas próprias vidas. Vislumbrei, de relance, a visão de futuro com que Eduardo devia sonhar, e que se foi com ele. Mas o que realmente invadiu meus pensamentos, e deles teima em não sair, é que uma criança de seis meses não se lembrará de ter conhecido o pai.
Sim, ele deixou mais quatro filhos. Sim, as outras vítimas também deviam ter filhos. Não!, as vidas de pais, mães e filhos são ceifadas aos montes, todos os dias, no mundo todo, por nada. Mesmo sabendo de tudo isso, sigo pensando nessa criança específica, que perdeu seu pai. Por quê?
Parte da resposta me veio facilmente. Porque também sou pai, lógico. Um pai cheio de defeitos: perco a paciência, às vezes sou indulgente, outras, duro demais. Dou maus exemplos, e até alguns bons. Mas, no fim de cada dia, sei que o mais importante é que eu estou aqui, com eles. Sempre estou, e no que depender de mim, sempre estarei. E, sem ter conhecido Eduardo, acredito que ele também pensava assim. Até que, de repente, não mais que de repente, não dependia mais dele. E acho que devo dizer obrigado, por ter sido forçado a lembrar do que quero esquecer, que um dia também poderá não depender de mim.
Mas, como já havia antecipado, isso é apenas parte da resposta. O resto dela, ainda mais óbvio, só se revelou para mim enquanto eu escrevia este texto. Penso em Miguel muito mais do que em Eduardo porque a morte só faz sentido para quem está vivo. E assim, percebi que não tenho nada a dizer sobre a morte. E que, se há algo que ela provoca em mim, é a vontade de agigantar minha vida.

Não por coincidência, as melhores palavras que me lembro de ter ouvido sobre a vida ecoaram de novo hoje, com a voz que se foi na segunda, 11 de agosto, saídas de um filme que assisti há mais de vinte anos. Carpe diem. Tornem suas vidas extraordinárias. Até lá, vamos viver. Porque se há remédio para a escuridão da morte, ele só pode ser a luz da vida. Façamo-la brilhar, enquanto podemos.


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Com Mérito


Há vinte anos, no último barraco do último beco da favela mais pobre e violenta do Rio de Janeiro, nasceu João. A equipe médica tinha apenas uma pessoa, que jamais se sentara num banco de escola, mas que conseguiu trazer ao mundo o próprio bebê.
No mesmo dia, na mesma cidade, a poucos quilômetros do primeiro cenário, num iluminado quarto de um hospital cinco estrelas, cercado de médicos, enfermeiros e fotógrafos, nasceu Luiz. 
Se nossos personagens simplesmente seguissem os caminhos que pareciam traçados desde seu nascimento, jamais se encontrariam. Mas suas trilhas acabaram se cruzando num ponto inesperado: como alunos da mesma Universidade. Luiz, primeiro colocado no concurso de seleção, para grande orgulho de seus pais; João, ocupando uma vaga reservada por meio de ação afirmativa. Sua mãe não entendia bem o que significava entrar para uma Universidade, mas pela reação do filho, achou que era uma coisa boa, e ficou feliz por ele.
Mas para João ainda não era tempo de celebrar. Sabia que terminar o curso seria muito mais difícil do que iniciá-lo. Por isso, quando surgiu a oportunidade de concorrer a uma bolsa de Iniciação Científica, agarrou-se a ela. Luiz, ansioso por construir um currículo irretocável, também se inscreveu.
O dia da publicação dos resultados guardava duas grandes surpresas para João. A primeira, ver o seu nome no edital, como um dos novos bolsistas. A segunda veio ao acessar o fórum de discussões do curso. Não era imune ao orgulho, e esperava que algum dos seus colegas o parabenizasse pelo feito. Em vez disso, deparou-se com a seguinte mensagem, assinada por Luiz Otávio:
“Estou absolutamente revoltado! Acabou de sair a lista de projetos aprovados para a iniciação científica, e adivinha? Tô fora!! E o pior nem é eu estar fora não, é que tem nome de cotista lá! O cara não devia nem estar na faculdade! Não satisfeitos em colocaram esse povo pra dentro, agora ainda estão dando mais vantagens? Tudo que eu queria era disputar de igual pra igual. Mas parece que isso é pedir demais nesse país de m..., que adora passar a mão na cabeça de coitadinho!”
João leu e releu o texto, até que se sentiu forçado a responder.
“Caro Luiz Otávio,
Meu nome é João Augusto, e sou o cotista que teve o projeto aprovado. Creio que nunca nos falamos antes. Na verdade, tenho quase certeza de que até que o meu nome aparecesse naquela lista eu era invisível para você, apenas mais um dos muitos que, como você escreveu, não deviam estar aqui. Lamento que não tenha conseguido emplacar seu projeto desta vez. Lamento ainda mais que nada do que eu tenho a dizer possa amenizar sua indignação.
Inicialmente, você se revolta com a minha presença na Universidade. Acha que eu não devia estar aqui. E tem razão. Afinal, nenhum daqueles que na infância chamei de amigos está. Volta e meia, ainda me pego pensando que eu devia estar com eles. Mas a maioria deles estão mortos, e ainda não quero morrer. Outros seguem vivos, flanando pelos mesmos becos e telhados em que brincávamos quando crianças. Mas agora seguram armas, ansiosos para se juntar aos que já se foram. Uns poucos, posso dizer que tiveram melhor sorte: estão limpando as ruas pra você e pros seus amigos, lavando seus carros, assentando os tijolos das suas casas. Eu sei, eu devia estar com eles. Mas decidi não estar, e acho que já cheguei muito longe para voltar atrás.
Depois, você reclama pelas mesmas vantagens que eu tive. Também não vejo como ajudá-lo nisso. Não posso voltar no tempo e transferir para você a ausência que herdei do meu pai, a miséria e desespero que choravam, todos os dias, nos olhos da minha mãe. Tampouco posso fazer com que sua pele ganhe a cor que brilha na minha, pois esta herdei dos meus ascendentes, que foram despejados aos montes nesse país, e nele sobreviveram entre correntes, estacas e chicotes. Eles sangraram muito para que eu chegasse até aqui, e essa é a única herança que aceito e da qual realmente me orgulho. Todas as outras que a vida tentou me dar, eu rejeitei antes, e rejeito agora. Não posso concedê-las a você, e mesmo que pudesse não o faria, porque não me atrevo a rejeitar um dos poucos ensinamentos que minha amada e iletrada genitora conseguiu me passar: o mal, não o desejamos a ninguém. Então, lamento novamente, mas é impossível competirmos em condições de igualdade. 
Finalmente, você se indigna por viver num país de med@. Estamos juntos nessa. Mas não vou passar a mão na sua cabeça. Vou apenas seguir lutando para que amanhã seja melhor do que hoje. Para que os meus filhos também possam cursar esta Universidade. E que, quando o momento deles chegar, ninguém lhes diga que este não é o lugar onde deviam estar.
Boa noite e boa sorte.” 



quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Nome do Jogo


Vamos imaginar que um estrangeiro amante do futebol, em suas andanças pela orla do Rio de Janeiro, resolva bater uma bolinha na praia. Ele é recebido com sorrisos, escalado numa das equipes, e começa o jogo. No primeiro passe que recebe, porém, é empurrado, se esborracha na areia e fica sem a redonda. Quando está abrindo a boca para reclamar, percebe que um dos seus companheiros de equipe recuperou a pelota utilizando o mesmo expediente. E, ante seu olhar atônito, a partida segue com uma sucessão de empurrões, ombradas, carrinhos e safanões. Diante dessa situação, o que poderia fazer o turista? Seguir jogando pelas regras que conhece e aprendeu a respeitar, sabendo que dificilmente conseguiria ganhar um só lance na partida; se adaptar às estranhas regras locais e começar também a praticar o futebol arte marcial; ou simplesmente se retirar do gramado.
Por mais que essa alegoria seja inusitada, acredito que espelhe o que deve sentir um cidadão honesto e bem intencionado quando tenta se aventurar na política brasileira.
Já escrevemos antes sobre a distância que existe entre nosso sistema eleitoral representativo, com forte influência do poder econômico, e a democracia conceitual, preconizada pela própria Constituição. Demonstramos, também, que um dos efeitos dessa plutocracia disfarçada é a absurda disparidade na representação do Congresso Nacional. Há, porém, uma consequência ainda mais nefasta: o sistema político vigente parece ter sido planejado sob medida para manter, e ser mantido, pela corrupção.

“O presidente que não contemporizou com o patrimonialismo, caiu.”
(Frase atribuída ao ex-Presidente Lula, em artigo do ex-quase tudo Ciro Gomes)

Espantou-me, na época em que li esse artigo, a baixíssima repercussão da suposta fala do ex-Presidente. Mas, pensando melhor, entendi que os adversários dificilmente poderiam obter dividendos eleitorais em cima dessa “revelação”. Afinal, os políticos precisam chamar atenção pelos pontos em que diferem dos seus concorrentes, de nada valendo repisar suas semelhanças. E mesmo o eleitor de raciocínio mais rudimentar dificilmente será convencido de que a corrupção é “privilégio” de um ou outro grupo, vide a democrática distribuição entre os partidos da “bancada ficha suja” (veja neste link os dados divulgados pelo TSE nas eleições de 2012). O principal partido de oposição ao governo federal lidera a lista, com o grande baluarte da base aliada nos seus calcanhares. Assim até dá para entender por que preferem não tratar com seriedade de certos assuntos. Discutir aborto, religião ou taxa de juros é muito mais seguro.

“O problema da corrupção não é apenas a violação das normas, mas o fato de ela muitas vezes ser as próprias normas.”
(Jean Wyllys, Deputado Federal de primeira viagem, leia o artigo completo aqui)

Vamos tentar contrariar frontalmente a afirmação acima e defender que não temos um sistema que estimula a corrupção. Que esta se originaria da má índole dos nossos políticos, e seria alimentada pela impunidade. Não duvido que estes fatores tenham grande peso na disseminação dos ilícitos. Porém, acreditar que a corrupção resulta somente de desvios morais, considerando a amplitude e diversidade da nossa fauna de colarinhos brancos, nos conduz a questões inquietantes: somos, então, todos imorais? Ou seria a classe política menos ética que a média da população? E, se isso for verdade, já eram menos éticos antes, e por isso se sentiram atraídos pela política, ou se tornaram menos éticos depois, para ter sucesso? Ou, se somos mesmo todos imorais, não iremos naturalmente tentar impor regras que facilitem e encubram nossas imoralidades?
Não importam as respostas que possamos dar a essas perguntas, nenhuma delas mudará o fato de que, se a corrupção nascesse apenas das más iniciativas de poucos indivíduos, ela não seria um problema tão grande como de fato é no Brasil. A verdade é que a corrupção se tornou parte integrante do nosso sistema político, em que o dinheiro é muito mais importante do que ideologia ou moral. Assim, é indiferente se achamos que pessoas más criaram o sistema, ou se elas se tornaram más por causa do sistema. Nos dois casos, é claro que ele precisa ser enfrentado. Precisa ser modificado.

 “O sistema não trabalha para resolver os problemas da sociedade. O sistema trabalha para resolver os problemas do sistema.”
(Capitão Nascimento, Tropa de Elite 2)

Mas será que não temos pessoas decentes, realmente honestas na política? Que consigam escapar das armadilhas e atuar em prol da sociedade?
Embora, evidentemente, não me arrisque a atestar a índole, para o bem ou para o mal, de nenhuma pessoa, em especial de políticos, prefiro acreditar que temos, sim, muitas pessoas dispostas a mudar para melhor o nosso país. E volta e meia me deparo com notícias que indicam que, se elas existem mesmo, enfrentam dificuldades maiores do que podemos imaginar.

“Sempre desejei um município livre da corrupção e injustiças, mas me sinto incapaz de exercer tal função.”
(Frase da carta de renúncia de Lori Gaio, ex-prefeito de São Jorge do Oeste/PR)

“Ou você dá o dinheiro, ou você não vai governar.”
(Ameça que o Prefeito de Itaocara-RJ afirma ter sido feita pelos vereadores)

Não conheço nenhum dos políticos envolvidos nos casos supracitados, e até pode haver um outro lado nessas histórias. Mas o que elas ilustram, no mínimo, é a irracionalidade de esperarmos que surja um redentor, um único indivíduo que enfrente o sistema e tenha sucesso. Nós temos, para o bem e para o mal, três poderes. Que normalmente só se aliam quando tem interesses em comum.
Faltam oitenta dias para 05 de Outubro. Posso apostar um dedo que, como mestres da prestidigitação, os candidatos farão todos os seus esforços para que a atenção das pessoas fique concentrada no que é menos importante. Para que as eleições continuem sendo uma guerra de torcidas, repletas de promessas que serão esquecidas na poeira do tempo e de mudanças cuidadosamente planejadas para deixar tudo absolutamente igual.
Mas por aqui, vamos aproveitar o período eleitoral para tentar jogar um pouco de luz sobre alguns temas que nossos abnegados políticos preferem deixar na escuridão. Evitando ao máximo citar algum candidato, afinal, não queremos ser alvejados pela Lei 12.891/2013.  
“Olhe a sua volta. Somos todos mentirosos aqui.”
(Petyr Baelish, por George Martin, “As Crônicas de Gelo e Fogo”)



sábado, 12 de julho de 2014

Tangos e Tragédias


Após uma pequena série de artigos relacionados à Copa do Mundo, seria estranho ignorar o fatídico destino reservado à Seleção Brasileira de futebol. Claro que, na “Copa das Copas”, não poderíamos ser eliminados com um placar magro, numa bola vadia. Teria que ser memorável. E, por mais que nossas chances de título nunca tenham sido assim tão grandes como alguns quiseram nos fazer acreditar (como já havíamos dito antes da eliminação, inclusive), não deixa de ser inesperado que, ao fim, tenhamos tido sucesso na organização do torneio e na recepção aos visitantes, e um fracasso tão retumbante no campo de jogo.
Apesar do peso do resultado, me espantei com alguns termos que foram constantemente repetidos na imprensa e nas redes sociais para se referir ao episódio: desastre, tragédia, vergonha, humilhação. Causaram-me tanta estranheza que me senti obrigado não só a refletir um pouco sobre o significado dessas palavras, mas também a compartilhar estas reflexões, que dividi em quatro partes, com os meus poucos e abnegados leitores.
Primeiro ato: poucos dias antes da partida houve o desabamento de um viaduto, por coincidência, na própria cidade de Belo Horizonte. Duas pessoas morreram. Isso é um desastre.
Segundo ato: em janeiro de 2013, um incêndio matou 242 pessoas e deixou feridas outras 116 numa cidade do Rio Grande do Sul. Isso é uma tragédia.
Terceiro ato: o Brasil foi um dos últimos países a abolir (formalmente, pelo menos) a escravatura. Somos, até hoje, uma sociedade racista, escravocrata, retrógrada e desigual, sem prejuízo de outros adjetivos. Isso é uma vergonha.
Quarto ato: ocupamos rotineiramente as últimas posições nos rankings mundiais de educação, com números próximos dos alcançados por potências econômicas como a  Albânia e a Tunísia. Isso é uma humilhação.
Após essa breve digressão, espero que possamos analisar a derrota nos campos sob uma perspectiva mais adequada. 
O esporte de alto nível é um negócio. Um ramo da árvore chamada indústria do entretenimento. E a Copa do Mundo é um dos ramos mais fortes e rentáveis dessa árvore. Por que ganhar ou perder uma competição esportiva, repentinamente, passa a significar tanto para as pessoas? Por que torcemos para Luke Skywalker derrotar Darth Vader?
Porque, naquele momento, seja num estádio de futebol, nas páginas de um livro ou numa sala de cinema, estamos em outra realidade. Num campo de sonhos. Que se espalha muito além das quatro linhas dos modernos estádios. Que embala as arrancadas e chutes em cada rua ou campinho de várzea, que inspira o grito de gol de cada criança que hoje sonha, “quando eu crescer vou jogar na seleção brasileira e me vingar desses alemães”.
Claro que poucos desses sonhadores realmente se tornarão profissionais do futebol. A maioria desistirá do sonho, como sempre acontece quando crescemos. Outros o perseguirão, mas sem sucesso. Mas o esporte tocará a vida de todos. Para alguns como mera recreação; em outros casos, como o detalhe que desviou um adolescente da marginalidade. Sim, nosso futebol hoje é um negócio, um produto: e embora ache que o resultado de campo não merece lágrimas ou imolação pública, também não pode ser desprezado. Precisamos valorizar novamente o nosso produto, alimentar os sonhos. Não porque precisamos de mais Copas do Mundo, mas porque precisamos de mais vida, mais felicidade, mais esperança no futuro.
Hoje podemos ter certeza de que, ao contrário do que se dizia, essa Copa do Mundo nos deixou sim vários legados. Tanto provando que somos capazes de grandes realizações, como escancarando problemas que já passou da hora de enfrentarmos. O que faremos desses legados, porém, depende da sociedade. Eu, pelo menos, nunca vi a raposa fechando a porta do galinheiro.
Que o legado do 7x1 seja a tão esperada mudança na gestão do nosso futebol. Para que ele volte a ser do povo, e não de meia dúzia de engravatados que enriquecem com o esporte. Para que tenhamos sim, estádios bonitos, mas para uso dos brasileiros, não da FIFA. Clubes fortes, alimentando paixões e gerando empregos, mas financiados pela receita de competições fortes e bem organizadas, não pelo dinheiro público.
E propostas para que isso se torne uma realidade existem. O que falta, como sempre, é vontade política. Para os interessados, sugiro que acompanhem, pelo menos, os trabalhos do Bom Senso FC e do nosso eterno camisa 11. E que comecem a debater, a pressionar seus representantes. Que tentem fazer parte da mudança.
As oportunidades, mais uma vez, se oferecem para nós. O futuro dirá se vamos aproveitá-las, ou se nos contentaremos com a troca do treinador e do camisa nove.