domingo, 8 de março de 2015

De olhos bem fechados


Há tantos tipos de pessoas no mundo quanto há pessoas no mundo. Ou, parafraseando Jaime Lannister, não existem pessoas como eu. Há apenas eu. Mas, unicamente para este artigo, vamos simplificar e assumir que há quatro tipos de pessoas: as que perguntam o que o mundo pode fazer por elas; as que perguntam o que elas podem fazer pelo mundo; as que não estão nem aí pra ¶0®®@ nenhuma; e as que tem um pouco de cada uma das três anteriores, e que na verdade são o único tipo que existe mesmo.
Afirmo sem receio que a categoria predominante e socialmente aceita pela civilização judaico-cristã-ocidental moderna e contemporânea é a primeira. Mas, para dirimir quaisquer dúvidas, vamos refletir sobre o significado atual do termo “bem sucedido”. Aplicando-o, por exemplo, a um médico. Qual o objetivo da Medicina? Salvar vidas; ou, se quisermos ser mais rigorosos, cumprir o juramento de Hipócrates, cuja versão atualizada inicia com a seguinte frase: “Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade.”.
O médico bem sucedido, portanto, deveria ser aquele que, ao consagrar mais intensamente sua vida a serviço da humanidade, salvasse o maior número de vidas. Desafio qualquer um, porém, a encontrar uma só menção a médicos que dedicam sua vida profissional a causas humanitárias, trabalhando em regiões inóspitas, com baixíssima (ou inexistente) remuneração, em que estes sejam qualificados como “bem sucedidos”. Não, poderemos encontrar uma série de adjetivos elogiosos a esses profissionais, mas jamais “bem sucedidos”. Um médico que dedica sua vida a serviço da humanidade implantando silicone em seios e nádegas de subcelebridades terá muito mais chances de ser “bem sucedido” do que um que prefira combater a epidemia de Ebola na África.
Claro que isso vale para todas as categorias profissionais. O advogado de sucesso não é aquele que mais contribui para a administração da justiça, o comunicador de sucesso não é aquele que mais fielmente se compromete com a divulgação da verdade. Para toda e qualquer carreira, a medida do sucesso é a conta bancária. 
Por mais que possamos não simpatizar com esse critério, ele é uma realidade, se não no mundo todo (que passo longe de conhecer), pelo menos na maioria dele, e com certeza na América. O que devemos pensar é: por que as coisas são assim? Ou, por que não deveriam ser? Afinal, não há nada de errado em desejar uma vida confortável, usufruir de alguns prazeres ao longo da vida. Por que alguém dedicaria sequer uma parcela do seu esforço para ajudar estranhos, almejando uma abstrata “contribuição para a sociedade”? E o que poderia, efetivamente, realizar?
Para reforçar a irracionalidade de viver “para o mundo”, vamos pensar em Oskar Schindler. Para quem não viu o filme, nem leu o livro, nem clicou no link, Schindler foi um industrial alemão que salvou a vida de mais de mil judeus durante a segunda guerra, empregando-os em suas fábricas. Os esforços de Schindler custaram a ele toda sua fortuna. Em troca, ele recebeu alguma ajuda financeira das organizações judaicas no pós-guerra, até 1974, quando faleceu, depois de quase três décadas de insucesso em diversas tentativas de novos negócios. Ganhou alguns títulos honoríficos, e teve a vida filmada numa obra extraordinária que levou sete Oscars em 1994.
Estima-se que de nove a onze milhões de judeus foram mortos no Holocausto. Schindler, portanto, reduziu o genocídio em 0,01%.
A história de Schindler tem muito a nos ensinar, mas, como o dia é de simplificações, atenhamo-nos a apenas uma lição: sacrifícios pessoais devastadores geram ganhos estatisticamente irrelevantes para a humanidade. Novamente, por que alguém faria isso?
“Para se sentir bem consigo mesmo” é uma resposta clássica. Mas será verdade? Preocupar-se com as pessoas geralmente produz apenas mais preocupação com as pessoas. Sempre haverá mais, muito mais a se fazer. Aliás, nunca vi isso tão bem representado como numa das últimas cenas da Lista de Schindler, quando o alemão chora por ainda ter um carro e um anel, se condenando por não tê-los vendido, o que poderia ter salvado mais duas ou três vidas.
Não vamos, porém, desconsiderar totalmente a força do altruísmo, ou do “egoísmo altruísta”, que seria a prática do bem como busca de satisfação pessoal. Como os judeus ensinaram a Schindler, “quem salva uma vida, salva um mundo inteiro”. E, do mesmo modo que grandes atos individuais tem pouca relevância global, pequenos gestos podem mudar radicalmente a vida daqueles que nos cercam.
Sob esse ponto de vista, Schindler não salvou 0,01% das potenciais vítimas do holocausto; salvou mais de mil mundos. E nós, simples espectadores do nosso tempo, ao darmos um presente de natal a uma criança pobre, não estamos concedendo um mísero minuto de alegria em meio a uma vida de tristezas. Estamos, talvez, acendendo uma luz que vai mostrar àquela única criança que existe solidariedade, que um futuro diferente é possível.
“Ah, mas não viemos até aqui para cair no clichê do copo meio cheio ou meio vazio, viemos?”
Melhor não, isso seria frustrante. Retornemos então a uma visão objetiva, e reconheçamos uma pequena verdade: como indivíduos, podemos fazer muito pouco. Como coletividade, pouco fazemos, até porque sequer nos enxergamos como parte de um coletivo. A injustiça é mais forte do que nós e tentar combatê-la só causa angústia. Por isso, fugimos. Mas, e se não fosse possível fugir? Se não houvesse meios de fechar nossos olhos? Se houvesse crianças morrendo de fome ao alcance de nossos braços, e não em documentários ou estatísticas? Nesse caso, a pergunta seria outra: como poderíamos viver pensando em acumular bens, enquanto cadáveres se amontoam aos nossos pés?
Não poderíamos. Não suportaríamos olhar, todos os dias, para crianças sentadas num chão sujo, famintas, com os dedos sangrando, costurando nossas roupas e sapatos. Mas daqui de onde escrevo, ou de onde você lê, não podemos ver essas crianças. E, de fato, não queremos vê-las. Não queremos sentir seu sofrimento, nem partilhar o seu desespero. Se há uma escolha, escolhemos não ver. E, não vendo, podemos até esquecer que elas existem.
O problema é que, em algum outro lugar do mundo, fechar os olhos não é uma opção. Não enquanto bombas caem dos céus e corpos são plantados na terra. Mas esse não é o mundo que queremos, não é o mundo que pode nos fazer felizes. Por isso, seguimos de olhos bem fechados. Seguimos olhando para nós mesmos. E de que outra maneira seria possível viver?

"Senti que os judeus estavam a ser destruídos. 
Tinha que os ajudar; não havia escolha".
(Oskar Schindler)




quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Constantine: Primeira Temporada


John Constantine é um personagem de destaque na linha adulta de quadrinhos da Detective Comics. Ocultista, demonologista, fumante inveterado, cínico e arrogante. Apesar de (ou por causa de) toda sua falta de escrúpulos e virtudes, o anti-herói arregimentou uma considerável legião de fãs. Após o sucesso de Arrow, era previsível uma enxurrada de séries inspiradas nos quadrinhos da DC, e em 2014 ela veio com Flash, Gotham e, claro, Constantine.
Infelizmente, a primeira temporada não teve o sucesso esperado, e a produção foi interrompida pela NBC após somente treze episódios. Há boatos sobre uma renovação da série na própria NBC, ou (o que parece mais provável) sua transferência para algum outro canal. Como o futuro é incerto, vamos logo ao assunto: minhas impressões sobre a primeira temporada de Constantine.
Malgrado a ameaça de cancelamento, a série não é ruim. Matt Ryan convence como John Constantine, o que ajuda muito a trama, já que todos os conflitos giram em torno do seu astro. Pena que os coadjuvantes não acompanham o ritmo. O “team Constantine”, composto pela vidente Zed (sim, ela é bem bonita!) e pelo motorista e pau-pra-toda-obra Chas (OMG they killed Kenny, er, Chas), transita apaticamente pelos episódios, a maior parte do tempo se limitando a seguir as pegadas do protagonista. Deviam saber que não é muito inteligente confiar em John Constantine :). Há raros momentos em que Zed e Chas emanam luz própria, ou entram em conflito com John; não por acaso, quando isto acontece o nível da série dá um salto. Fica até difícil avaliar o desempenho desses atores, quando a história foi tão pouco generosa com seus personagens. Para não ficar em cima do muro, acho que Charles Halford (Chas) se sai melhor do que Angélica Celaya (Zed), que pelo menos é brilhante na função de enfeitar a tela. Harold Perrineau, mais conhecido como o mala Michael de Lost, completa o elenco principal interpretando um anjo que busca a ajuda de Constantine para deter as “trevas ascendentes”. 
Essa ameaça, que seria o fio condutor do roteiro, permanece etérea ao longo de toda a temporada: não sabemos o que John precisa fazer para deter a “ascensão das trevas”, aliás, nem ele sabe, ou parece se preocupar realmente com isso. Constantine e sua trupe enfrentam as ameaças na medida em que elas aparecem, e pronto. O problema (mais um) é que Supernatural faz isso melhor há dez temporadas, com a vantagem extra de integrar melhor os episódios "avulsos" ao plot principal. 
Intensidade talvez seja a melhor palavra para definir o que faltou, até aqui, em Constantine. A boa atuação de Ryan não é suficiente para empolgar em meio a coadjuvantes apagados, um roteiro não mais que mediano, e uma atmosfera de terror light que não me pareceu a mais adequada para o personagem. O que não impediu, porém, que fossem cometidos alguns episódios muito bons. Destaco o 1.03, Feast of Friends, o 1.10, Quid pro Quo, e o derradeiro 1.13, Waiting for the man, para mim, o melhor da série. Aliás, eis algo de positivo a se dizer, que pode alimentar a esperança de uma segunda temporada: houve uma sensível melhora nos quatro episódios finais. Talvez a equipe esteja acertando a mão, e Constantine ainda seja capaz de entregar aquilo que promete. Porque a impressão que fica é que havia potencial para ser muito melhor. Que será uma pena se não virmos mais Matt Ryan como John Constantine.
Pesando tudo, daria uma nota sete para a primeira temporada de Constantine. A série patina entre o bom e o regular, o que não costuma bastar para garantir um lugar ao sol no concorridíssimo mercado televisivo norte-americano atual, pontuado por produções de altíssima qualidade (aguardem o post sobre a melhor que assisti nos últimos tempos, True Detective). Mas, para encerrar, vamos responder à pergunta que impulsiona aqueles que resolvem ler uma crítica: devo assistir à série?
Bem, se você é fã do personagem, óbvio que sim. Se não o conhece, nem costuma gostar de histórias sobrenaturais, pode passar longe. Se não é fã, mas gosta do gênero, depende da sua agenda. Se estiver em dia com Supernatural, American Horror Story e Penny Dreadful, não custa passar umas dez horinhas com John Constantine. Espero que sejam agradáveis e, ao final delas, também comece a torcer para que o mago mais sacana dos quadrinhos volte às telas, levando o inferno ao Inferno por mais algumas temporadas.
#saveconstantine



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

A hora mais escura


Há menos de três meses, externei grandes esperanças em relação ao futuro do país. Na época, pensava haver motivos suficientes para tal otimismo. Afinal, em 2014 foram descobertos e denunciados uma série de casos de corrupção (como a máfia do ISS, a queda do “Império X”, o “petrolão”). E as denúncias, finalmente, vieram acompanhadas de prisões. Como se não bastasse, também tivemos o aniversário de um ano de cadeia dos condenados no mensalão.
Objetivamente, as coisas não parecem ter mudado muito desde então. Delatores continuam delatando, executivos entram e saem de carceragens, o homem mais rico do país na semana passada assiste à Polícia Federal apreendendo suas modestas posses. Não obstante, minhas expectativas já não são as mesmas. E o que as fez mudar, creiam, foi um comentário singelo, que encontrei reproduzido mais vezes do que seria desejável (bem, uma vez já seria mais do que o desejável), que apresenta a “solução final” para a corrupção: privatizar.
O contexto, evidentemente, é o noticiário que envolve a Petrobrás. E eu, que pensava ser óbvia a falta de correlação entre comportamento desonesto e o caráter público, ou privado, de uma instituição, constato que estava enganado e que mais uma vez o óbvio escapou aos olhos de muita gente (ok, sempre tem uma chance de 0,01% de eu me enganar). Para minorar meu equívoco, sugiro que cliquem aqui e leiam um excelente artigo sobre o comportamento desonesto, repleto de gráficos, pesquisas e referências. Aviso logo que abordarei o tema de modo bem mais simplificado.
Feito o alerta, vamos iniciar construindo uma linha de raciocínio que nos permita enfrentar a espinhosa questão proposta: como erradicar a corrupção? O primeiro passo é definir o problema. Moleza, o problema é a corrupção. O segundo passo, identificar suas causas. Por que existe corrupção? Opa, isso já não é tão fácil de responder.
A simples proposição da pergunta deve bastar para percebermos que o problema é complexo – e, como tal, não será resolvido com uma “bala de prata”. Acreditar em soluções simples para problemas complexos é, no mínimo, ingenuidade. Não nos contentemos, porém, em negar apenas que a “solução” é privatizar. Vamos além, para demonstrar que privatizar (ou estatizar, ao seu gosto) sequer arranha a solução.
Por que alguém praticaria um ato de corrupção? Visualizo um processo que envolve, no mínimo, quatro elementos: a ambição (intenção de auferir vantagem); a ausência de uma formação ética e moral que o impeça de adotar um comportamento reprovável para auferir essa vantagem (às vezes o vazio moral é tão profundo que o agente sequer reconhece que o comportamento é condenável); a avaliação de que os benefícios superam os riscos (no popular, a confiança na impunidade); e, por fim, a oportunidade.
Os dois primeiros elementos são subjetivos, e com certeza privatizar ou estatizar empresas não tornará as pessoas menos gananciosas, tampouco modificará os valores morais delas.
No quesito impunidade, os riscos tendem a diminuir quando retiramos o poder público da equação. Não há legislação adequada no Brasil para atos de corrupção exclusivamente privados; quando há lei, as penas são menores do que nos casos de corrupção pública; as empresas privadas não estão sujeitas aos mesmos controles das públicas; etc. etc. e se duvida, ou, pior, “não sabia” que existe (muita) corrupção no setor privado, leia isto e pelo menos um pouco disto.
Analisando o último elemento, oportunidade, e tomando como exemplo justamente a Petrobrás, de que modo privatizá-la reduziria as chances de atos ilícitos? A empresa continuaria contratando obras, vendendo serviços e assumindo obrigações, tanto com particulares quanto com o poder público. Ser pública, privada ou de economia mista afeta o fórum em que futuros desvios são julgados; mas dificilmente impediria um diretor inescrupuloso de pedir propina ao empreiteiro. Aliás, não custa lembrar que as empreiteiras que ocupam o outro pólo da “lava-jato” são todas empresas privadas.
“Ah, mas a corrupção em empresa particular é diferente. Lá podem até roubar, nem me importo, porque o dinheiro é deles. Numa empresa pública, estão metendo a mão no meu dinheiro!”
Bem, o seu dinheiro devia estar num banco, ou debaixo do colchão. Imagino que o interpelante queira se referir aos recursos públicos, que provém das mais diversas fontes, uma das quais, os tributos que somos compelidos a pagar. Sabem de onde não vem os recursos esperados? De empresas que sonegam impostos, chegando até (segundo as más línguas) a contribuir generosamente com agentes públicos ou políticos para que estes não vejam seus ilícitos, ou, melhor ainda, imponham leis em seu benefício, tornando lícito o que deveria ser ilícito.
Agora, se quisermos falar do nosso dinheiro mesmo, aquele que podemos gastar livremente, um ambiente de negócios corrupto tem como conseqüência direta o aumento dos preços dos produtos que consumimos. Não acreditam? Não leram o relatório de 150 páginas da Transparência Internacional? Tem um resumo aqui.
Enfim, apenas para deixar claro que estamos falando de uma coisa, e não de outra: quem entende que o Estado não é o agente mais apropriado para explorar petróleo, ou emprestar dinheiro, ou operar estradas, e deveria se ocupar de atividades mais propícias ao bem comum (como saúde, educação, segurança), ótimo. Que alinhe seus melhores argumentos e defenda as privatizações. Mas não sejamos tolos ao ponto de acreditar que privatizar é um remédio contra a corrupção. Que basta parar a música, trocar as pessoas sentadas nas cadeiras, e vislumbrar um pôr do sol reluzente. Não, desta vez precisamos derrubar as cadeiras.
Mas se isso parecer difícil demais, se preferirem continuar exercendo o direito inalienável de se iludirem com não-soluções fáceis, por favor, pelo menos pensem um pouco antes de verbalizar semelhantes tolices. Porque quero continuar acreditando que, se as velhas estruturas um dia caírem, seremos capazes de construir alguma coisa melhor no lugar. Que não nos deixaremos enganar com uma mera troca de atores, a serviço dos mesmos interesses de sempre. Que nos cansamos de ver o futuro repetir o passado.

E para encerrar, lembrando que estamos, de algum modo, tratando da Petrobrás, a trilha sonora é em homenagem à situação atual da empresa. Bom carnaval!



sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

O Livro da Selva


AVISO: o texto a seguir é uma combinação descoordenada 
de devaneios, carentes de fundamentação científica respeitável. 
O assunto provavelmente já foi filosofado por algum sacana
que nasceu séculos antes de mim só para roubar minhas ideias. 
Porém, se não tiver nada melhor para fazer e insistir na leitura, 
a parte boa é que não usarei palavras difíceis nem elucubrações 
metafísicas para tornar as coisas mais complicadas do que já são.

A pequena parte útil do meu cérebro costuma emitir zumbidos irritantes de alerta toda vez que identifica a expressão “natureza humana” em uma frase. Por um longo longo tempo segui a vida sem ter a mínima noção do motivo pelo qual isso me incomodava. Afinal, sempre há algo mais importante em que se pensar, e todos aprendemos a viver com pequenos desconfortos.
Mas chega um dia em que o incômodo vence a preguiça. De tanto ouvir “a natureza humana é egoísta”, “não existe isso de natureza humana”, “o ser humano é bom, o mundo que é mal”, e aproveitando que minhas séries favoritas e o futebol brasileiro estavam em férias, me pus a refletir sobre o assunto.
O primeiro passo: fazer o máximo de esforço para esquecer todas as besteiras que fizeram minhas sinapses estalarem e começar do zero. Será que existe essa tal natureza humana? Mas eu nem sei o que é isso. E, se não sei o que é, não vou reconhecê-la quando a vir. Então, precisamos voltar mais um pouco e começar do menos um: o que seria a “natureza humana”?
Bem, a natureza de uma coisa é aquilo que faz a coisa ser o que é. O que nos permite diferenciá-la das outras coisas diferentes dela. Logo, a natureza humana seria a(s) característica(s) essencial(is) de um ser humano. Aquilo que nos permite saber que no ponto “A” estamos olhando para um homem, que resplandece natureza humana, no ponto “B” para um símio, que exibe sua natureza simiesca, e no ponto “C” para uma galinha com sua natureza galinácea.
Logo, a natureza humana deve ser algo que está presente nos seres humanos, apenas neles, e em nenhuma outra espécie; e mais, algo que todos os seres humanos tenham, obrigatoriamente, em comum.
Uma vez que atinei com essa definição, percebi por que os debates tradicionais sobre natureza humana me aborrecem: pela tentativa de associar o conceito a padrões de comportamento, a instintos, ou, pior, a uma espécie de predestinação biológica. Posso não saber o que a natureza humana é, mas todas essas relações me parecem mais adequadas para demonstrar o que ela não é.
A natureza humana não pode ser “instinto”, simplesmente porque todos os animais tem instintos. Até nossa preferência por viver em sociedade, rituais de afirmação, ciclos de amadurecimento, encontram paralelos em outras espécies. A presença de instintos naturais prova, sim, que não nascemos “zerados”, mas nada esclarece sobre a natureza humana.
A qual não é, tampouco, “padrão de comportamento”. Aliás, nada há de mais típico no comportamento humano do que a variabilidade. Encontramos lado a lado nos jornais notícias sobre escândalos bilionários de corrupção e catadores de lixo devolvendo malas de dinheiro (quem será que perde todas essas malas de dinheiro, aliás?). O padrão é justamente a falta de padrões.
“Espera um pouco aí. O ponto é que o termo natureza humana tem sido usado, há bastante tempo, com esse sentido, de características que seriam comuns aos seres humanos, e não com esse outro de essencialidade que você inventou (ou copiou de algum fóssil).”
Exato, esse é o ponto, contestar a definição de natureza humana como "traço de comportamento invariável". Porque é uma classificação imprecisa, inadequada, nociva.
Sim, nociva, porque as palavras tem poder. E o poder da "natureza" tem sido usado para fortalecer, por exemplo, o discurso da “predestinação”. A velha história de “não podemos fazer nada, a natureza humana é assim mesmo”. Essa desculpa é tão furada que serve igualmente a vários propósitos: se você é mesquinho e ganancioso, não é sua culpa, a “natureza humana” é que é egoísta. Mas se você é compassivo, solidário, daqueles que sente um aperto no coração quando vê moradores de rua com frio e cachorrinhos famintos, está expressando a bondade natural do ser humano. Nascemos angelicais. O mundo é que é ruim, que nos obriga a fazer coisas que não queríamos, a fechar os olhos para as injustiças. Só não consigo entender uma coisa: se somos naturalmente bons, de onde viria toda a maldade?
“Ah, mas então a presença de injustiças prova que a natureza humana é má e egoísta mesmo.”
Não, besta. E não é, se não por qualquer outro motivo, simplesmente porque o egoísmo é um comportamento observado também em outras espécies. Então, mesmo que sejamos egoístas “de berço” (o que é bastante discutível), isso não é a “natureza humana”. É só mais um instinto primitivo que falhamos em controlar.
Para que serve, então, proclamar que nascemos de um ou de outro jeito, que somos ou deixamos de ser isso ou aquilo? Talvez para nos convencer de que há coisas que não podem ser mudadas. Que construir um amanhã que realmente mereça esse nome está além de nossas forças.
Talvez esteja mesmo. Mas, entre a realidade sombria em que vivemos e uma impossibilidade luminosa, escolho acreditar no impossível. Por isso, quando escutar de novo que "a culpa é da natureza humana”, já sei como calar o zumbido. A natureza, para quem se interessar, passa no Discovery Channel. Vamos usar o nome certo: escolhas. São elas, somente elas, que definem nossas vidas e transformam este mundo. Se somos mesquinhos, gananciosos, individualistas, nada de colocar a culpa na “natureza humana” nem no “mundo cruel e selvagem”. Estamos por aqui há mais de cinco milhões de anos. Temos idade suficiente para assumir a responsabilidade pelos nossos atos e, quem sabe, arrumar pelo menos um pouco da bagunça que largamos pelo caminho. A menos que alguém ainda acredite que a culpa é toda da serpente.

(Se o vídeo abaixo não estiver aparecendo no seu navegador clique aqui para a trilha sonora.)






sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Operação Tempestade no Deserto


Eis que, num dia cinzento e particularmente sem graça, me sinto compelido a escrever sobre uma tragédia em potencial. Tarde demais, reconheço: a essa altura até o governador deve estar sabendo que São Paulo está contando os dias para se candidatar a cenário do remake de Lawrence da Arábia.
Não demorei tanto a abordar o tema por ignorá-lo; de fato não sei patavina sobre gestão de recursos hídricos, mas imagino que não seja nada de muito complicado. Se fosse, não teriam aparecido tantos catedráticos de uma hora pra outra. Ou talvez isso se deva a extraordinária capacidade de aprendizado do brasileiro. Se na Copa todos viram técnicos de futebol, é natural que num tempo de águas escassas pululem especialistas em engenharia ambiental, desenvolvimento sustentável, regimes fluviais, pluviais, aluviais, e o ©@®α£≠J. Apareceu até psicólogo amador diagnosticando “stress hídrico”.
Eu, porém, não tinha o que dizer mesmo. Até pensei em algumas piadinhas, mas relutei em brincar com tema tão delicado. Ainda mais em tempos particularmente perigosos para os humoristas (e o pior nem é ser fuzilado, mas ficar levando esporro do Papa depois de morto).
Claro que nem todos compartilham dos meus receios e escrúpulos. E, num claro contra-ataque ao monte de leigos que se aventurou a dar palpite sobre gestão hídrica, o presidente da Sabesp resolveu atacar de comediante. Concluí que não tenho a capacidade de superá-lo, então pego emprestadas suas pérolas, com os devidos créditos. Infelizmente não resisti à tentação de tecer comentários, espero que eles não estraguem as piadas.
“Se for necessário chamar isso de racionamento, que assim seja. O relevante é impedir que ações na Justiça, de proteção a supostos direitos individuais, atentem contra a segurança hídrica de todos.”
A coisa anda tão feia que até os rios estão sendo assaltados. E eu aqui pensando que a “segurança hídrica” estava ameaçada porque a empresa que devia cuidar disso vacilou. Que nada, a culpa é das pessoas que futuramente, quem sabe, poderão entrar na justiça contra a companhia cobrando que ela faça aquilo que assumiu a obrigação de fazer. E o “relevante” não é buscar formas de resolver o problema, mas impedir que surjam essas inconvenientes reclamações.
"O evento do ano passado, do ponto de vista hidrológico, foi imprevisível."
Esse cidadão deve ter passado os últimos doze anos em retiro espiritual, pois desde 2003 já havia alertas sobre o risco de uma pane no sistema hídrico paulista. O que foi previsto não pode ser imprevisível. Isso é tão lógico quanto hidrológico. (Que trocadilho infame, tem certeza que vai deixar isso aí?)
"Nenhum administrador público de qualquer nível seria considerado prudente se fizesse um sobreinvestimento tão grande para enfrentar algo que nunca tinha sido enfrentado."
Acho que ele quis dizer que, se não acontecer nada de errado, tudo fica bem. Mas, se der alguma merda, é melhor chamar outro. E eu pensando que para administrar precisava ter a capacidade de planejar, prever cenários, enfrentar problemas. Se basta agir no automático e depois botar a culpa no mundo, qualquer idiota pode se candidatar ao cargo. Será que pagam bem?
"São Pedro tem errado a pontaria, tem chovido, mas não onde deve chover."
Essa passou dos limites. Só espero que semelhante blasfêmia não chegue ao conhecimento do Vaticano, já temos problemas demais.
E, depois de chegar ao fim da matéria em que foram expostos tão brilhantes argumentos, percebi que não precisava ler mais nada. Até porque, no fim das contas, me debruçar sobre um monte de artigos, entrevistas, gráficos de distribuição de chuvas, índices pluviométricos, projeções e simulações, não diminuiu em nada minha ignorância sobre o assunto. Somente após as sábias palavras do presidente da Sabesp, e levando em conta ainda o histórico de declarações do eminente governador, foi que atinei com a única solução possível para o problema a essa altura dos acontecimentos. Não me agradeçam, o mérito é todo da banda:


quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A última Grande Guerra


Nove dias, doze corpos e cinco milhões de exemplares vendidos não foram o bastante para que parassem de disparar tiros contra o Charlie Hebdo.
A segunda onda de ataques foi tangencial, sorrateira, ao ponto de se negar como ataque. Refiro-me, claro, à tentativa de desviar o debate, que poderia ser sobre a violência como forma de imposição da “verdade”, sobre um mundo que cultiva fanáticos capazes de matar pessoas por causa de um desenho, ou até mesmo sobre os limites da nossa tolerância com a barbárie justificada pela “fé”. Mas nunca sobre os “limites da liberdade de expressão”.
Como a segunda onda já foi tema do artigo anterior, vamos ao seu desdobramento. A terceira onda jogou fora o disfarce de elucubração teórica que sua antecessora vestia e mirou diretamente na desconstrução da imagem das vítimas. Não que eles merecessem ser assassinados, claro, mas o semanário era racista, xenofóbico e ofensivo. Além disso, o que esses cartunistas vagabundos fizeram para virarem mártires da liberdade de expressão?
Levar uma vida nobre e virtuosa não é pré-requisito para se tornar mártir. Ser morto é.
Talvez nesse momento caiba a explicação de que essa divisão em “ondas” não guarda relação necessária com a cronologia, mas apenas com a minha percepção das reações do público. Ou talvez essa explicação seja desnecessária. Sei lá.
Voltando ao que (não) interessa: a terceira onda, em si, é natimorta. Já nasceu agonizante, encurralada entre a vergonha do que ela própria pretendia dizer e a absoluta impossibilidade de trazer os mortos de volta à vida para poder achincalhá-los com mais propriedade. Surge, então, a quarta e última onda que identifiquei: a “amenização” da tragédia. Lamento, mataram doze pessoas. Mas há tanta coisa pior acontecendo pelo mundo. Por que tanta comoção em torno desse caso específico?
O argumento mais divulgado pelos adeptos da quarta onda é a comparação entre o número de mortos na revista francesa e os produzidos pelo grupo extremista Boko Haram na Nigéria. De fato, se formos contar cadáveres, o massacre do Charlie Hebdo é numericamente insignificante comparado com o da Nigéria, que é numericamente insignificante comparado com a Guerra da Bósnia, que não chegou aos pés de uma única frente de batalha das Cruzadas.
É evidente, portanto, que tanto a repercussão pública como o modo com que cada evento nos impacta pessoalmente não depende só de números. Um assassinato na porta do seu prédio certamente chamará mais sua atenção do que uma dúzia de homicídios na Tailândia. Dois mil mortos na Nigéria hoje nos incomodam mais do que os milhões caídos durante as Cruzadas, há mais de quinhentos anos. Tempo, espaço, identidade cultural, grau de exposição na mídia. Uma infinidade de fatores afeta nossa visão dos fatos. Especificamente sobre Boko Haram x Charlie Hebdo, recomendo a seguinte matéria: “Por que nos mobilizamos pela França, mas nos esquecemos da Nigéria?”.
Feita a recomendação, é claro que se resolvi escrever este artigo e o conduzi até aqui é porque acredito ter algo a acrescentar. Há um elemento crucial que diferencia o ataque à revista do massacre na Nigéria, do conflito sino-palestino, e de qualquer outra guerra religiosa.
Escrevi, na coluna anterior, que meus deuses eram os Vingadores e os Jedi. Imagino que ninguém tenha pensado que faço orações para o Thor (o que até faria sentido, já que ele é um deus mesmo!) ou para Luke Skywalker. Os leitores podem ter imaginado, talvez, que prefiro cinemas a igrejas. Refletindo um pouco além, talvez encontrassem o significado de um tempo em que preferimos cinemas (ou livros, quadrinhos, séries de TV) a igrejas. Ou, pelo menos, um dos possíveis significados: a mídia de massa é a “religião” do século XXI. Para ser mais preciso, a cultura popular, disseminada pelos meios de comunicação de massa, desempenha com grande eficiência um papel que no passado era predominantemente das religiões: manter nossas mentes ocupadas com fantasias, fábulas, mitos, parábolas, enfim, com qualquer coisa que não seja o mundo real. Não importa se uma vende Luke Skywalker x Darth Vader, e a outra, Deus x O Diabo; pensar em Guerra nas Estrelas ou em Sodoma e Gomorra se equivalem no essencial, que é o “não pensar” na realidade.
O impacto das comunicações de massa e a ameaça que elas podem representar às religiões já foram percebidos há décadas pelas Igrejas. O templo do século XXI é o site na Internet, a emissora de rádio, o canal de televisão, a rede social. Já que é impossível combater a disseminação dos meios de comunicação, vamos ocupá-los com a Palavra.
Foi aí que pensei: se aqueles malucos tivessem dinheiro para comprar um jornal ou uma rede de televisão, provavelmente não metralhariam a Charlie Hebdo. Como as economias deles só foram suficientes para meia dúzia de armas, precisaram combater ideias com balas. E só então percebi a peculiaridade do atentado à (racista, não-é-racista-porra-nenhuma, xenofóbica, de-jeito-nenhum, islamofóbica, você-que-é, de mau gosto, vsf-você-nem-sabia-que-existia-essa-porra-de-revista-antes-do-ataque) revista francesa: eles não foram até lá para matar pessoas. Não foram até lá para “vingar” o profeta, ainda que pudessem de fato acreditar que o propósito fosse esse, assim como acreditavam que seriam recebidos por dezenas de virgens no paraíso.
Eles foram à Charlie Hebdo para dizer que a verdade que eles professam não admite contraditório. Para ensinar que quem pensa diferente deles deve se calar. Que, a cada derrota que sofrerem na batalha das ideias, cobrarão o preço em sangue.
Por isso, repito: não é sobre “limites da liberdade da expressão”. Não é sobre “respeito a crença alheia”. Não é sequer sobre preconceito ou intolerância. É sobre racionalidade x loucura. Canetas x metralhadoras. Ceticismo x dogmatismo. É mais uma face do conflito entre o futuro com que sonhamos, no mínimo, desde o Renascimento, e um passado de trevas, ignorância e destruição sem sentido que se recusa a morrer.
Pensei em concluir dizendo que, por tudo isso, eu sou Charlie, sim. Mas a verdade é que, daqui a algumas semanas, as lembranças dos eventos de sete de janeiro começarão a desvanecer. Merecerão alguns minutos nas retrospectivas de 2015, talvez notas de rodapé nos livros de história, até que se tornarão uma curiosidade do passado.
Melhor dizer que sou humano. E fazer o que posso para que, a cada dia, mais e mais pessoas digam o mesmo, antes de se afirmarem católicas, evangélicas, judias, islâmicas, xintoístas, sunitas, xiitas. Que se reconheçam pelo que tem de comum, e não por diferenças imaginárias. E, se isso não for suficiente para que desistam de se matar, que pelo menos arrumem desculpas melhores do que a defesa de suas crenças. Porque, não sei quanto a vocês, mas eu jamais seguiria um pregador que empunhasse uma kalashnikov.


segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Você é um bom homem, Charlie Brown!


“Je suis Charlie” é o primeiro candidato a meme do verão. Não sou fã de memes, mas reconheço que nesse caso pelo menos a motivação é nobre: solidariedade aos mortos no ataque à revista francesa e defesa da liberdade de expressão.
Mas, como é bonito ser do contra, logo surgiu a turma do “Je ne suis pas Charlie”. Claro que os “não-Charlie” não apoiam o ataque, como poderiam? Estão apenas tentando “ampliar o debate”, compreender as “motivações”. O humor do “Charlie Hebdo” seria de mau gosto. Ofenderia os islâmicos. Há um contexto de xenofobia e islamofobia na sociedade francesa, que ajuda a incendiar os ânimos. E de repente, antes que os cadáveres esfriem, nos deparamos com mesas-redondas sobre os limites da liberdade de expressão.
Até concordo que esse tema tenha sua importância, em outro contexto. No caso do ataque, a questão não é essa. E não é essa simplesmente porque não há cenário possível em que uma sátira mereça ser respondida com rajadas de metralhadoras. Se chegamos ao ponto em que isso acontece, e ainda estamos procurando justificativas, há algo de profundamente errado com o mundo. E, mesmo admitindo que todos possam ter sua parcela de culpa, vou correr o risco de afirmar que os mais problemáticos são os caras que disparam metralhadoras ou amarram bombas nos próprios corpos.
Num outro mundo, talvez essa tragédia, mais essa, nos levasse a refletir sobre até que ponto as pessoas podem chegar para defender os mitos e fábulas em que acreditam. No nosso mundo essa pergunta é tola, já sabemos que não há limite. Matamos e morremos por nada há séculos. Se podemos matar e morrer por Deus, Alá, Vishnu, Xenu ou Rama Kushna, melhor ainda.
Queria poder escrever que isso é coisa do passado, que cruzadas e inquisições pertencem aos livros de história. Mas as guerras do século XXI são reais, tão reais que pertencem à Internet. Para encontrar uma, basta digitar os nomes de quaisquer dois credos no google e seguir os gritos de dor e as poças de sangue. Muçulmanos x cristãos, judeus x muçulmanos, xiitas x sunitas, tem conflito envolvendo até os budistas.
Parece difícil relacionar qualquer um desses conflitos com a realidade brasileira. Estamos a milhares de quilômetros das bombas, e tenho (quase) certeza de que as pessoas religiosas que conheço nunca pensaram em metralhar alguém, ou em promover limpezas étnicas. Um dos muitos efeitos nocivos da banalização da violência, porém, é nublar nossa percepção. Há outros meios de prejudicar as pessoas além de atirar nelas ou explodir suas casas. E podemos sim encontrar algumas atitudes potencialmente nocivas por aqui, motivadas por uma lógica bem semelhante a que move qualquer guerra religiosa.
Para desenvolver o raciocínio, precisamos primeiro entender o conceito de externalidade. Academicamente falando, externalidades são os efeitos de uma decisão sobre terceiros que não participaram dela. No popular, as consequências dos nossos atos na vida dos outros. Ambientalistas gostam muito de usar esse conceito para falar sobre banhos demorados e SUVs queimando combustível demais.
O segundo ponto é bem mais difícil: devemos aceitar que existe uma chance de que as coisas em que acreditamos não sejam reais. Ou, pelo menos, que o modo como agimos, em função das nossas crenças, pode não estar correto, pode não ser exatamente aquilo que o deus que seguimos gostaria que fizéssemos. Talvez fique mais fácil admitir isso se nos lembrarmos, todos os dias, que aqueles que metralharam o Charlie Hebdo acreditavam estar fazendo o bem. Que o reverendo Jim Jones, pregando sabe-se lá o quê, convenceu mais de novecentas pessoas a se suicidarem. Que Hitler uniu a população alemã num projeto de genocídio e dominação mundial. Assim, basta um pouco de humildade para reconhecer que não somos mais sábios ou iluminados do que os outros seres humanos, e podemos ser iludidos do mesmo modo.
Ora, a partir do momento em que somos capazes de aceitar que não sabemos a “verdade”, podemos aplicar o conceito de externalidade para julgar nossos próprios atos. Só por via das dúvidas. Inclusive, e principalmente, aqueles que costumamos praticar no “automático”, pela sua aparente conformidade com as nossas crenças. Reparem que não estou dizendo para ninguém abandonar a própria fé. Nem tenho como falar de divindades alheias, quando meus deuses são os Vingadores e os cavaleiros Jedi. O ponto é que, apesar disso, não saio por aí desafiando as pessoas para duelos com sabres de luz.
Enfim, o que pretendo dizer é: a menos que uma entidade mitológica fale diretamente com você, único meio que poderia lhe dar absoluta certeza de que está fazendo a vontade Dele (a menos que você seja um esquizofrênico delirante, porque aí não poderia confiar nem nos seus olhos e ouvidos), duvide. Conteste. Pense. Analise as possíveis consequências das suas condutas.
Porque, por mais estranho que isso possa parecer, lembre-se: há quem acredite estar fazendo o bem ao matar pessoas. Parece óbvio que isso é o mal, e o que “nós” fazemos é o bem, não parece? Atirar no cartunista é ruim, doar para as crianças carentes é bom. Mas e quando o nexo causal não é tão evidente como tiro = morte?
E quando, por exemplo, precisamos decidir entre apoiar ou não uma campanha de distribuição de preservativos e educação sexual? O governo e os médicos dizem que a campanha salvará vidas. O padre, o pastor, dizem que incentivará a promiscuidade. Que o melhor antídoto é a castidade (sim, eles ainda dizem isso, doze de janeiro de 2015. Que a história registre). E quando pais tentam impedir que seus filhos recebam transfusões de sangue, porque a bíblia ordenaria “não comer o sangue”? E quando, novamente para evitar a “disseminação da promiscuidade”, católicos e evangélicos se unem para boicotar a vacinação contra o HPV, vírus que matou quase cinco mil mulheres no Brasil só em 2013?
Cabe o registro de que essas posições medievais já são fortemente combatidas por muitos fiéis e líderes religiosos, dentro das próprias igrejas. Aleluia, o século XV um dia vai acabar, tenho fé.
Poderíamos prosseguir com questões polêmicas, como aborto e pesquisa com células-tronco. Mas essa pequena lista já é suficiente para perceber que existem outras decisões de vida ou morte, além de apertar ou não gatilhos. Podemos assumir essas decisões, ou deixar que outros as tomem por nós.
Só que, eis a grande armadilha: nos abstermos das decisões já é uma decisão. E, do alto das minhas descrenças, creio que, se há ou um dia houve um Deus, Ele não ficaria nada feliz ao ver suas criações abrindo mão do dom mais precioso que concedeu aos seres humanos: o livre arbítrio. Somos livres, até para escolhermos abrir mão da nossa liberdade. Mas, se há ou um dia houve um Deus, será mesmo que Ele esperaria tão pouco de suas amadas criações?