sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Dez coisas que eu odeio em você


Nos últimos dias, viralizou nas redes o texto de um norte-americano que, após viver por alguns anos no Brasil, decidiu partilhar suas impressões, um tanto críticas, sobre a cultura nacional. Ele creditou a maior parte dos problemas do país aos padrões de comportamento vigentes por aqui: o “jeitinho”, a vaidade, a leniência com a corrupção, o pouco ânimo para confrontos, o vitimismo.
Como nós, brasileiros, adoramos quando falam mal de nós (só não gostamos mais disso do que de falar mal de nós mesmos, e só o que gostamos mais do que falar mal de nós mesmos é fazer isso na terceira pessoa), vieram os previsíveis aplausos para o americano. Também houve vozes dissonantes, mas de modo geral a repercussão parece ter sido mais positiva do que negativa.
Embora reconheça os méritos do autor ao produzir uma crônica que em instantes se tornou popular, e reconhecendo a importância da discussão que desencadeou (tanto que também compartilhei o texto), não compactuo com a conclusão, bem chutada, de que “nós” somos o problema. Do mesmo modo que não me alinho ao “pachequismo” de não aceitar críticas, ou de ficar eternamente jogando a culpa nos portugueses, nos holandeses, nos ianques, na revolução bolivariana. A discussão em torno desses dois pólos conduz a lugar nenhum, exceto a uma variante do enigma de Tostines: o Brasil tem problemas há séculos por causa da cultura, ou a cultura é assim porque o Brasil tem problemas há séculos?
Ora, não faz diferença nenhuma se a culpa é dos colonizadores, da família imperial, do Fidel Castro ou do Rockfeller. O português não vai voltar aqui pra consertar o que tiver estragado; mesmo porque, depois do português, tantos outros já vieram aqui para se divertir, levar nosso dinheiro, e ainda deixar uns palpites como cortesia. Quem precisa resolver a parada somos nós mesmos (de preferência, falando na primeira pessoa). E dificilmente avançaremos com vira-latismo ou autoflagelação.
Claro que não podemos ignorar as pequenas coisas, que nem são tão pequenas assim. Como seria bom um país sem furadores de fila, sem roubadores de troco, sem pilotos amadores de fórmula 1 ignorando sinais vermelhos e faixas de pedestres, sem carros estacionados em lugar proibido. Um país em que votos não fossem trocados por presentes e cargos públicos, em que não coexistissem a revolta com a corrupção alheia e a complacência com os próprios desvios. E como seria bom se pudéssemos mudar tudo isso só repetindo, dia após dia, que nossa cultura é um lixo, que precisamos ser mais educados mais respeitosos mais cidadãos etc. e tal. Mas, se “o brasileiro” não tem cidadania porque nunca foi tratado como cidadão, ou vice-versa, já não importa, pois não é crível que consigamos separar um fator do outro.
Por exemplo, a sonegação: jurídica e moralmente, é condenável? Sem dúvida. Mas não vamos reduzi-la sequer em milésimos de centavos apenas com outdoors e palavras de ordem. Enquanto persistir a falta de transparência sobre a arrecadação e uso dos serviços públicos, a percepção generalizada de corrupção e mau uso dos recursos, jamais teremos uma sociedade comprometida a pagar corretamente os próprios impostos e combater a sonegação.
Aplicando esse raciocínio a tantas outras mazelas do cotidiano, pode-se inferir que o determinante maior do comportamento que virou estereótipo do "brasileiro" não é a vaidade, nem a ganância, tampouco o coitadismo. É a desilusão.
De que adianta ser tão honesto, se ninguém mais é? Por que não jogar lixo na rua, se ela já está imunda mesmo? E daí se o empresário está sonegando, que diferença faz se o dinheiro fica com ele ou com o governo? Não lembro nem em quem votei, mas não são todos iguais?
Podemos ficar décadas, gerações, lamentando por sermos tão ineptos, ou por termos sido tão explorados. Tanto faz, o fracasso será certo em qualquer dos caminhos.
Podemos continuar falando de nós mesmos na terceira pessoa e puxando a orelha do “brasileiro” que não sabe votar, não tem educação, não exerce a própria cidadania.
Ou podemos, só pra variar um pouco, tentar outra saída: combater a desilusão.
Podemos, só pra variar, acreditar que se pararmos de jogar lixo nas ruas elas ficarão limpas. E, depois que estivermos convencidos, convencemos outras pessoas. Que um dia, de tanto insistirmos, acabarão acreditando também, e convencendo mais pessoas. Até que, como se fosse de repente, as ruas ficarão mesmo mais limpas.
Podemos, só pra variar, cultivar novas virtudes, em vez de ruminar velhos vícios.
Ou podemos continuar dando chibatadas nas próprias costas. Aliás, nas costas do “brasileiro’, esse nosso indesejável parente distante.


domingo, 14 de fevereiro de 2016

O último dos moicanos


Na era da hiperconectividade, a patologia da incontinência verbal se espalha mais rapidamente que o vírus Zika. As pessoas parecem contaminadas pelo desejo incontrolável de compartilhar suas ideias sobre tudo, mesmo quando só o que tem a dizer é “kkk” ou “Absurdo! Vergonha!”.
Mesmo acometido dia sim, outro também, pela compulsão de escrever, espero estar livre dessa epidemia. Resisto à tentação de emitir opiniões em 99% dos casos. Mas de vez em quando surge um “tema sobre o qual nunca havia pensado em escrever, mas me sinto forçado, após um surto de genuína indignação”. E, antes que 99% dos leitores se evadam, genuinamente indignados com tantas preliminares, melhor esclarecer logo que o assunto é a polêmica Uber x Taxistas, e os argumentos que pretendo discutir foram expostos neste artigo (clique se quiser seguir o link – precisa de cadastro na Folha/ Uol).
O texto chama atenção pelo currículo de quem o assina: deputado federal, ex-secretário municipal de transportes em São Paulo, enfim, o tipo de cidadão cujas ideias podem um dia se transformar em algo que sejamos obrigados a cumprir. E, sob o revelador título “Uber é concorrência ilegal e predatória”, o parlamentar expõe, em síntese, o seguinte:
1. O Uber pode provocar a extinção da categoria profissional de taxista;
2. O Uber utiliza motoristas não credenciados, e busca estabelecer regras diferenciadas para um sistema que já existe e tem normas definidas pelo Poder Público;
3. O Uber não cumpre as diretrizes (tarifas, regras e regulamentação) estabelecidas pelos governos municipais, e criou suas próprias regras, usurpando o papel das prefeituras;
4. Os motoristas do Uber não são submetidos a nenhuma avaliação, os pagamentos são feitos somente por cartão de crédito, e as tarifas são variáveis conforme a demanda;
5. Já existe um sistema regulamentado que funciona a favor do usuário, porque garante a qualidade do sistema e do preço, se houver fiscalização atuante das prefeituras (verdade, ele escreveu isto);
6. A tendência é que o monopólio, hoje estatal, passe para o Uber, com a desvantagem de que o povo elege o prefeito, mas não pode eleger quem comanda o Uber;
7. Há suspeitas de sonegação no pagamento de obrigações tributárias.
Após dividir mentalmente essas sentenças em categorias (possivelmente verdadeiras, mas irrelevantes; argumentos apresentados como contrários, mas que na verdade depõem a favor do aplicativo; e aqueles que parecem ter vindo diretamente de uma realidade paralela), estamos prontos para atacar as primárias teses da acusação.
O Uber pode extinguir os taxistas? Pode, assim como os carros prevaleceram sobre as charretes, o Netflix está fulminando as locadoras de vídeo, e a televisão reduziu os índices de natalidade. O futuro sempre chega. Mas os taxistas não serão vaporizados como os dinossauros, eles continuarão por aí, fazendo outras coisas. Alguns poderão até se cadastrar no Uber, ou inventar modelos de negócio melhores que o substituam.
Motoristas não credenciados? Carteiras de habilitação são concedidas por órgãos estatais. Talvez “credenciamento” signifique pagar uma licença, preencher formulários, alimentar a burocracia. Que, além de faminta, se ofende também com a existência de “regras diferenciadas” para um sistema já normatizado pelo poder público. 
Se essas normas públicas garantissem a satisfação da clientela, os taxistas não teriam com que se preocupar. Mas de que servem regras, controle, fiscalização, se mesmo assim o serviço “alternativo”, “clandestino”, oferecer maior utilidade aos usuários?
Seguimos nos deparando com afirmações estranhas, como o “problema” de só aceitar cartões de crédito, o que tende a aumentar a segurança nas duas pontas; tarifas variáveis conforme a demanda, verdadeiro atentado contra a economia planificada que, pensei eu, havia ruído com o Muro de Berlim; e a afronta de desafiar um modelo que já garante melhor qualidade e preço. Só os usuários que não perceberam e preferem migrar para um novo serviço, apesar de toda a perfeição do que já existia.
Precisamos concordar, todavia, que não iremos “eleger” quem comanda o Uber. Mas podemos provocar a falência desta e de qualquer outra empresa, parando de utilizar seus serviços. Aliás, também não podemos eleger de verdade o prefeito ou qualquer outro governante, porque o voto vale muito menos que a grana.
Quanto a “suspeitas de sonegação”, o mesmo raciocínio se aplica a “n” empresas, muitas bem mais que apenas “suspeitas”. No caso específico do Uber, o detalhe de aceitar pagamentos apenas com cartão de crédito inclusive dificulta a sonegação. Além disso, os motoristas pagam tanto IPVA como ICMS na compra dos veículos, enquanto os taxistas gozam de isenção desses impostos. Tentar conduzir o debate contra o Uber no campo tributário é uma aposta ousada na ignorância de todos que estão do outro lado da mesa.
Não foi, porém, a superficialidade dos argumentos que me indignou, muito menos o viés anti-Uber (aliás, nunca nem usei esse tal de Uber), mas sim o subtexto: a defesa de um modelo de Estado que tem seu fim em si mesmo. Indignação que nasce não por estar diante de uma rematada bobagem, de uma concepção anacrônica, ou de uma falácia cristalina; mas da frustração de não poder dizer que o parlamentar está errado desta vez. Pelo menos, não no mundo real.
Estivéssemos numa sala de aula, ou num clubinho de debates, esse discurso não resistiria aos mais triviais princípios da Teoria Geral do Estado: “o objetivo maior do Estado é a busca do bem comum, os controles sociais devem prezar a eficiência e a justiça”, coisas assim. Mas as decisões de verdade não acontecem na Academia. Do lado de cá dos livros, “o sistema trabalha para resolver os problemas do sistema”.
Não sei quem vencerá a queda de braço Uber x Táxi, se é que haverá vencedor; mas sei que, quando o Estado vigente é um Estado que trabalha para si mesmo, que enxerga o anseio geral por mais liberdade e autonomia como um incômodo, cuja autoridade é um valor mais importante que o bem comum, quem sai perdendo é a sociedade.
Reclamamos, com frequência, dos serviços ruins do Estado, da gestão pública perdulária, dos casos de corrupção. Discutimos, com menos frequência, o quanto os governos deveriam intervir em nossas vidas. Um novo modelo de Estado não será gerado dentro da caixa, por políticos viciados em jogar pelas velhas regras, tampouco resultará de um pensamento travado em falsas dicotomias, como se todas as opções se reduzissem a modelos de laissez faire do século XIX ou ao totalitarismo dos antigos países socialistas.
Novos modelos demandam uma forma diferente de pensar. Precisamos entender o papel ideal do Estado, definir as atribuições que o conduziriam a esse modelo ideal, e assumir nossas próprias obrigações em relação a todo o resto – porque se pretendemos aumentar nosso poder, também aumentará nossa responsabilidade.
Só então poderemos construir um Estado que, abandonando a pretensão de tudo fazer e se concentrando no que é essencial, resgate seu verdadeiro propósito: perseguir o bem comum. Que nos ajude a empreender, trabalhar e viver, e que saiba se afastar quando estivermos, por conta própria, nos virando melhor do que seria possível sob suas rédeas.
  

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O despertar da força


Quem acompanha o blog deve perceber que encaro o futuro com otimismo. Não tenho dúvidas de que hoje estamos melhor do que há cinquenta anos, e sigo acreditando que, entre tropeços e quedas, estaremos ainda melhor daqui a mais algumas décadas.
Reconheço que é difícil acreditar nisso quando um ano se encerra e os destaques das tradicionais retrospectivas são atentados terroristas, guerras, epidemias, mares de lama (tanto literais quanto metafóricos). Mas mesmo os túneis mais escuros possuem uma saída, que podemos encontrar se começarmos a seguir os sinais certos.
O problema é que estes sinais, se existem, não se mostram da mesma maneira para todos. Enxergamos o mundo pelas nossas próprias e distorcidas lentes. Mesmo assim, por vezes há sinais tão claros que não conseguimos entender porque ainda estamos parados no mesmo lugar.
O que nos impede de seguir o caminho aberto pelos estudantes de São Paulo, que tiveram suas reivindicações atendidas após ocuparem mais de duzentas escolas em resposta a um decreto de “reorganização escolar” que implicaria no fechamento de unidades e transferência de alunos?
Eles conseguiram o que reclamamos desde sempre: exercer efetivamente a democracia. Confrontados com uma decisão arbitrária do governo, que afetaria diretamente suas vidas, decidiram não aceitá-la. Lembraram-se do que a maioria de nós esquecemos, ou nunca soubemos: que a existência do Estado só se justifica se for para servir à sociedade.
Tomaram de volta o que já era deles. O decreto foi revogado. O secretário responsável pela “reorganização”, vendo frustrado o propósito de impor sua visão superior aos incômodos governados, caiu. Os alunos continuam e continuarão nas mesmas escolas.
Se derrotas tem muito a nos ensinar, podemos aprender ainda mais com as vitórias. Quais foram os motivos que levaram ao sucesso dos estudantes? Poderíamos imitá-los e nos mobilizar para influenciar outras decisões de governo e ter o mesmo êxito em campos tão diversos como o combate à corrupção, a melhor prestação de serviços públicos, a transparência e moralização da política?
Para responder, precisamos antes refletir se estamos dispostos a nos dedicar a estas batalhas como os estudantes se engajaram na luta pelas suas escolas. É provável que 99% da sociedade afirmará enfaticamente condenar a corrupção. Porém, um percentual desprezível se disporá a sair às ruas, monitorar o uso dos recursos públicos, ocupar o Congresso, enfim, a adotar atitudes efetivas para atingir o objetivo que afirmam almejar.
Comparando a luta pelas escolas e a revolta generalizada com “tudo isso que está aí”, há pelo menos uma diferença fundamental: no caso dos estudantes, havia uma demanda claramente definida, e uma projeção cristalina de como seria o futuro no caso de sucesso ou fracasso. Entre a opção de nada fazer e perderem suas escolas, ou assumirem o risco de enfrentar o governo, preferiram o enfrentamento.
Não parece assim tão complicado decidir entre uma derrota certa e a possibilidade, ainda que remota, de vitória. Mas esse quadro se torna nebuloso quando tratamos de temas genéricos, ou intangíveis.
Sonhos podem mobilizar pessoas, mas apenas se forem pintados com cores vivas o suficiente para que seja possível acreditar neles. Entre o mundo que temos e aquele que queremos há um abismo muito mais difícil de atravessar do que aquele que foi cruzado pelos estudantes paulistas para não perderem suas escolas. O que nos separa de um admirável mundo novo, porém, não é apenas o fato dele parecer estar tão longe que não conseguimos vê-lo, mas antes nossa incapacidade de crer que outro mundo é possível.
Cegos para as pontes imaginárias entre pequenas batalhas e grandes conquistas, nos refugiamos no ceticismo e na resignação. Sabemos que grandes jornadas começam com o primeiro passo, mas ninguém pretende expor os pés descalços a uma trilha de espinhos sem saber o que aguarda no final do caminho. Se pretendemos alcançar um novo lugar, precisamos antes saber exatamente para onde queremos ir.
Mas como rumar para um destino que não está marcado em nenhum mapa? Simples: o inventamos, assim como os estudantes inventaram um mundo em que suas escolas não seriam fechadas.
Precisamos construir uma nítida visão do futuro, tão clara que possamos senti-la se materializando a nossa volta pouco a pouco, em cada brasileiro que seja salvo da miséria, em cada árvore plantada, em cada palavra escrita e compartilhada, em cada sorriso de criança, em cada ato que reafirme a honestidade, em milhares de primeiros empregos, primeiros beijos e últimas esperanças.
E então nos amarramos a essa visão, tijolo por tijolo, assim como os estudantes se amarraram a suas escolas. 


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Proteger e Servir


A imprensa tem uma especial atração por calamidades. Homicídios, estupros, chacinas, atentados terroristas e afins dominam as manchetes dia sim, outro também. Acostumamo-nos com esse submercado da morte, ao ponto de não termos mais nossa atenção despertada por “qualquer” tragédia. Pessoas morrem todos os dias. E, quanto mais notícias ruins recebemos, menos nos importamos com cada uma delas.
Porém, mesmo no turbilhão da superinformação, há acontecimentos que se revelam mais marcantes do que outros. Que sinalizam de forma única e contundente a profundidade do abismo em que nos enfiamos.
Sábado, dia 28 de novembro de 2015. Cinco jovens, não por merecimento, pobres, não por coincidência, negros, não por escolha, moradores de periferia, não por acaso, inocentes, foram fuzilados por policiais militares. Segundo a perícia, mais de cem tiros foram disparados contra o veículo das vítimas.
Nenhum deles levantara a voz, as mãos ou uma arma contra os policiais. Nenhum deles fora acusado de qualquer crime que “justificasse” a execução. Aliás, sequer foram abordados pelos policias; apenas pelas balas.
Não é o primeiro, nem será o último assassinato cometido por agentes da “lei”. Seria excesso de otimismo esperar que essa chacina em particular marque um ponto de inflexão que nos conduza a uma reforma das instituições de segurança pública, para que estas se dediquem, por fim, ao objetivo (teórico) que motiva sua existência: proteger os cidadãos. Ao contrário, como se nada houvesse acontecido no Rio de Janeiro, em São Paulo os policiais militares partem para a guerra contra estudantes.
Quantas mortes serão necessárias para que percebamos que a coisa toda está errada? Será que um estudante de onze, doze anos precisa engrossar as estatísticas de abatidos pelo Estado, para que nossos governantes percebam que não é uma boa ideia enviar tropas de choque contra adolescentes cujo único crime é lutar pelas suas escolas? Isso não é absurdamente óbvio?
Claro, não é óbvio para os políticos e comandantes da PM, assim como não parece ser para o “homem médio”. De outro modo não teríamos, mesmo após uma chacina tão absurda e desmotivada como a de Costa Barros, o tradicional comentário de que “não se vê tanta indignação quando é um policial que é morto”. Frase que demonstra, além de absoluta falta de empatia, alto grau de ignorância sobre o que deveria ser uma força policial. Assim como nos acostumamos com mortes sem sentido, também aceitamos com bizarra naturalidade a polícia como ela é, um instrumento de guerra, e nem nos damos conta de que isso é tudo que ela não poderia ter se tornado.
Com o perdão dos que entendem, desde sempre, qual a diferença entre um policial matar um inocente e um policial ser morto por um bandido, dedicarei umas poucas linhas a isto. Pois me convenci, após ler tantas vezes tal indagação, que ainda é assunto nebuloso para muitos.
Vamos tentar clarear o horizonte com uma analogia. O Homem-Aranha está combatendo o Doutor Octopus. Encurralado, o vilão recorre a um expediente traiçoeiro: com seus tentáculos mecânicos, derruba parte de um prédio, provocando uma chuva de tijolos sobre os pedestres. O escalador de paredes abandona a perseguição de imediato e, com sua teia, monta um escudo para proteger os cidadãos. Sua decisão é rápida, porque bastou seguir a premissa básica de sua atividade super-heróica: ele sai às ruas para ajudar as pessoas. Prender bandidos é o meio, e não o fim.
Policiais não são super-heróis, mas uma força de segurança pública só faz sentido de tiver como objetivo primeiro e último o mesmo seguido pelos super-heróis: defender os inocentes. Aliás, quem diz isso não sou eu nem o Stan Lee, as próprias instituições o dizem, ao menos no papel. Vejamos, por exemplo, a missão da Polícia Militar do Estado de São Paulo:
Proteger as pessoas;
Fazer cumprir as leis;
Combater o crime;
Preservar a ordem pública.
Vamos repetir: proteger as pessoas. Em primeiro lugar. A coisa mais importante que a polícia pode e deve fazer.
Portanto, quando um policial extermina as pessoas que deveria proteger, há uma ruptura fundamental no tecido da sociedade. Bandido matar policial é um crime bárbaro, lógico; mas o que se espera de um criminoso é que cometa crimes. O que se espera de um policial é que os impeça. Ou pelo menos que não os cometa.
E, num país em que deixamos de saber a diferença entre policiais e criminosos, em que pretos e pobres e jovens e jovens pretos pobres já enterraram amigos demais para que possam acreditar que ainda existe alguma diferença, só há uma certeza: pelas esquinas e favelas do Brasil, os corpos continuam caindo, sem saber de onde vem os tiros. Até quando?


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Admirável Mundo Novo


“No futuro todos serão famosos por 15 minutos.” Quando cometeu essa frase, na década de 60, talvez Andy Warhol soubesse que ela atravessaria décadas, e que ele próprio se tornaria um ícone do pós-modernismo e de um mundo que já migrava numa espiral de superinformação e superficialidade. Talvez até mesmo visualizasse a Internet, os reality shows, as guerras em que mísseis são disparados por comandos de videogame. Mas suspeito que, se estivesse vivo hoje, mesmo um visionário como Warhol se espantaria com a intensidade do alcance da sua profecia.
As celebridades instantâneas do século XXI não são mais apenas os vencedores do American Idol; agora, a morte e a destruição também são servidas em lata. Chegamos ao ponto em que se tornou mais importante discutir quais mortes “merecem” nossa lamentação e um registro na linha do tempo das redes sociais do que parar para refletir, por mais de 15 minutos, sobre o que nos tornamos e como pudemos, sem perceber, construir um mundo tão cínico e insensato.
Vamos, então, parar por 17 minutos e reconhecer que existe algo de profundamente errado num mundo em que inocentes são metralhados por fanáticos religiosos; e tampouco é muito promissor o mundo em que cidades inteiras são soterradas por um mar de lama, porque um punhado de executivos decidiu que aumentar as margens de lucro é mais importante do que preservar a vida. Como se não fosse o bastante, tudo isso se passou no mesmo mundo; e enquanto decidimos entre hastear a bandeira da França ou a do Brasil, mais 27 mortos no Mali.
As tragédias de Paris, Mariana e Mali tem muito em comum, além do rastro de corpos e da bizarra disputa por atenção midiática. Todas refletem o resultado da banalização da morte, do desprezo pela vida humana. Por Deus, por dinheiro, ou pelos dois; de repente, a única coisa real que temos se tornou desimportante, sufocada por coisas que inventamos.
E tudo parece tão complicado, e parece impossível encontrar uma solução que não demore, com otimismo, centenas de anos. Quantas décadas para recuperar um rio morto? Quantos séculos até formarmos gerações que deixem de acreditar numa recompensa divina para aqueles que derramam o sangue dos infiéis? Quantas guerras até vencermos a guerra que não sabemos como vencer?
Gostaria de dizer que é fácil, se tentarmos. Mas a verdade é que estamos viciados em autodestruição, e livrar-se de um vício nunca é fácil. Não viveremos o bastante para ver um mundo livre da insanidade e da ganância, e isso parece absolutamente frustrante. Podemos, contudo, um dia de cada vez, sermos sensatos e gentis. Podemos, um dia de cada vez, ensinar aos nossos filhos que não há paraíso no céu para aqueles que praticam o inferno na Terra. Podemos, um dia de cada vez, sufocar aqueles que vivem do ódio preenchendo o mundo com amor. 
E assim, um dia de cada vez, eles serão derrotados. Pois sempre haverá quem insista na alegria de viver.
(Eu não vou lhes dar o presente de odiar vocês.)
(Antoine Leiris, que perdeu sua esposa nos ataques em Paris.)




quarta-feira, 14 de outubro de 2015

A grande roda da história


No último dia das crianças, meu filho pediu de presente um Banco Imobiliário. Não aquele que vem com uma calculadora, mas o que tem notinhas. Exatamente o mesmo que eu jogava quando tinha a idade dele, nos primórdios da saudosa década de 80. Bem, não exatamente o mesmo. As notas agora são impressas num papel de pior qualidade. Os imóveis e companhias do tabuleiro são outros. Temos, por exemplo, uma empresa de telefonia celular. E, por último e mais importante, na década de 80 os hotéis eram grandes casas vermelhas, que diferiam das casinhas verdes mais pela cor e tamanho do que pelo formato. Agora, os hotéis são torres acinzentadas.
Como tive muitas coisas a fazer entre a década de 80 e hoje, talvez não tenha prestado a devida atenção às mudanças que ocorreram enquanto minha própria vida passava. Mas abrindo o Banco Imobiliário moderno, olhando aquelas torres, me pus a pensar em como era diferente o mundo do “meu” Banco Imobiliário.
O filósofo alemão Hegel, morto em 1831, mais de cem anos antes da invenção do Banco Imobiliário, acreditava que o “espírito do mundo” evoluía progressivamente (embora não sem percalços) ao longo da história. Estaríamos, assim, sempre a caminho de patamares mais altos de autoconhecimento e de liberdade. Para Hegel, "A história universal nada mais é do que a manifestação da razão".
Difícil acreditar nisso, quando tudo a nossa volta parece tão sem sentido. Mas Hegel dizia também que “cada indivíduo é filho de sua época”. Não podemos antever o futuro e, a maior parte do tempo, nos esquecemos de olhar para o passado. Até que somos transportados repentinamente de volta no tempo por uma foto, pelo resgate de uma lembrança fugidia, ou por uma peça de Banco Imobiliário.
Produto da minha época que sou, sinto-me realmente incapaz de afirmar se Hegel tinha razão e o “espírito do mundo” caminha para a plenitude, e não para a entropia. Mas, quando penso que no mundo do “meu” Banco Imobiliário viver sob uma ditadura sanguinária do nosso lado do Equador era regra, não exceção; que, em 1935 o “Monopoly” foi lançado nos Estados Unidos entre duas grandes guerras, apenas quatro anos antes do início do holocausto; que o século XIX de Hegel trouxe, além das tradicionais guerras e da Revolução Industrial, a abolição da escravatura em quase todo o globo; nestes momentos, me permito pensar que talvez, apenas talvez, quando meu filho comprar o Banco Imobiliário do filho dele, não viveremos mais num país em que toda a linha sucessória da República esteja comprometida por escândalos de corrupção. Tampouco num mundo que deixa crianças morrerem afogadas para proteger linhas imaginárias, que discrimina, humilha e mata pessoas por causa da cor da pele, das tendências sexuais ou dos deuses em que calharam crer.
E, falando em crenças, percebo que, por mais agradável que seja imaginar um novo amanhã, somente acreditar não é o bastante. Como vaticinou o próprio Hegel, “nada de grande se realizou no mundo sem paixão”.
Não sei como será o mundo do Banco Imobiliário do meu neto. Não sei, sequer, se terei netos, se eles também ganharão Bancos Imobiliários, ou se ainda estarei por aqui para jogar com eles. Mas já não me preocupo tanto com o futuro. Escolho acreditar que, no fim, o que importa é a jornada, não o destino. E, enquanto arder a paixão, cada passo valerá a pena.


sábado, 5 de setembro de 2015

Valar Morghulis



Atribui-se ao filósofo grego Epicuro a seguinte passagem: “A morte não nos diz respeito. Pois, enquanto vivemos, a morte não existe. E, quando ela chega, nós já não existimos”.
Epicuro, porém, se esqueceu (ou fingiu se esquecer, para validar o próprio argumento) de que não passamos por este mundo sozinhos. Basta vivermos tempo suficiente que a morte nos atingirá uma, duas, três, quantas vezes ela vier. Até que venha para nós. Só então, finalmente, não importará mais.
Enquanto isso, parece que sempre haverá algo que ela possa nos roubar. As palavras que gostaríamos de ter dito. As que dissemos, mas queríamos dizer de novo. As promessas que não pudemos cumprir, e as que nunca fizemos. Os sorrisos que ficaram para trás. O passado que não poderá ser repetido. O futuro que não existe mais.
Não é nada fácil, portanto, agir como pregava o filósofo e simplesmente ignorar a morte. Enganamo-nos, porém, se pensarmos que ela de fato nos rouba alguma coisa. Tudo que a morte possa levar nunca havia sido de fato nosso. Nunca poderia ter sido. Tudo que realmente é, ou possa ser nosso, está fora do alcance da morte. A menos que resolvamos, por conta própria, caminhar para a sombra, permitir que ela invada o que não lhe pertence.
Virão, sim, dias que nascerão somente para outros olhos. Horas incontáveis, intermináveis, sem nossos pais, filhos e amigos. Lágrimas que correrão de nós, e por nós. Que a escuridão se estenda sobre esses dias, pois lá é o lugar dela. Mas apenas sobre eles. Não cedamos sequer um segundo a mais.
Que o tempo para morrer jamais supere o tempo para viver. Haverá, sim, tempo para chorar, sempre demasiado, e tempo para ser feliz, que teimará em acabar tão rápido. E como eu gostaria que houvesse tempo para encontrar as palavras perfeitas, que traduzissem o ensinamento mais importante e tão simples da vida: que ela seja nossa enquanto é. Mas nem sempre há tempo, e eis que já se vão muitos dias olhando para a tela em branco, procurando a frase final. Temendo, bem lá no fundo, que ela nunca apareça. Sabendo que, um dia, qualquer dia, não haverá mesmo tempo para mais nada.
Mas hoje não foi esse dia. Hoje, não. Hoje, consegui escrever até o fim. Hoje, não precisei deixar nada para trás. Hoje, descobri que nem precisava ter escrito nada, porque há mais de cinquenta anos houve um par de gênios que disseram tudo em poucas frases... pois é isso que os gênios fazem. Deixam presentes para nós. Provam que a vida não acaba quando termina. Iluminam aqueles momentos mágicos em que a vida vale a pena ser vivida. E, se ao ler estas linhas você se lembrar de alguma pessoa que fez isso por você, saiba que ela também foi genial. Chore se tiver que chorar. Mas antes de chorar outra vez, lembre-se: amanhã pode chover de novo. Então é melhor seguir o sol.